Questão FC654436
Considere o texto abaixo, do pensador francês Voltaire (1694-1778), para responder à questão. O preço da justiça Vós, que trabalhais na reforma das leis, pensai, assim como grande
Morfologia
FCC · 2022
Considere o texto abaixo, do pensador francês Voltaire (1694-1778), para responder à questão.
O preço da justiça
Vós, que trabalhais na reforma das leis, pensai, assim como grande jurisconsulto Beccaria, se é racional que, para ensinar os homens a detestar o homicídio, os magistrados sejam homicidas e matem um homem em grande aparato.
Vede se é necessário matá-lo quando é possível puni-lo de outra maneira, e se cabe empregar um de vossos compatriotas para massacrar habilmente outro compatriota. [...] Em qualquer circunstância, condenai o criminoso a viver para ser útil: que ele trabalhe continuamente para seu país, porque ele prejudicou o seu país. É preciso reparar o prejuízo; a morte não repara nada.
Talvez alguém vos diga: “O senhor Beccaria está enganado: a preferência que ele dá a trabalhos penosos e úteis, que durem toda a vida, baseia-se apenas na opinião de que essa longa e ignominiosa pena é mais terrível que a morte, pois esta só é sentida por um momento”.
Não se trata de discutir qual é a punição mais suave, porém a mais útil. O grande objetivo, como já dissemos em outra passagem, é servir o público; e, sem dúvida, um homem votado todos os dias de sua vida a preservar uma região da inundação por meio de diques, ou a abrir canais que facilitem o comércio, ou a drenar pântanos infestados, presta mais serviços ao Estado que um esqueleto a pendular de uma forca numa corrente de ferro, ou desfeito em pedaços sobre uma roda de carroça.
(VOLTAIRE. O preço da justiça. Trad. Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 18-20)
Está correto o emprego de ambos os elementos sublinhados na frase:
- A racionalidade de que devemos nos basear evita decisões incompreensíveis, como legitimar uma sentença de morte aonde a reparação é nula.
- Uma punição de cuja utilidade se estenda à sociedade é preferível do que aquela que nenhuma reparação traz em sua aplicação.
- Ao contrário de uma sentença na qual decorrem benefícios sociais, a condenação à morte não lhes propicia a ninguém.
- A legislação à quem cabe estipular as punições deve atentar nas consequências finais da aplicação das sanções.
- Não faltam exemplos com os quais Voltaire lembra certas medidas punitivas cujos efeitos propiciam algo de bom para a sociedade.
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
Errado
Comentário do professor
Na oração correta, com os quais retoma exemplos e introduz a oração relativa por meio de preposição. O verbo/locução subentendida transmite a ideia de que Voltaire evoca certas medidas por meio de exemplos, portanto a preposição com é exigida pela regência e acompanha o pronome relativo os quais, que concorda em gênero e número com exemplos (masculino plural).
Já cujos estabelece relação de posse entre medidas punitivas e seus efeitos. Importante: o pronome cujos concorda com o termo que vem depois (o possuído), aqui efeitos (masculino plural), e retoma o antecedente (medidas) indicando que os efeitos pertencem a essas medidas.
Assim, com os quais (regência + referência a exemplos) e cujos (relação de posse com concordância pelo possuído) estão adequadamente empregados.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em