Questão FC654468
A opinião ostensiva do médico era que a doença do Quincas Borba iria saindo devagar. Um dia, o nosso Rubião, acompanhando o médico até à porta da rua, perguntou-lhe qual era o verd
Morfologia
FCC · 2022
Leia o trecho do romance Quincas Borba, de Machado de Assis, para responder a questão.
Este Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler as Memórias Póstumas de Brás Cubas, é aquele mesmo náufrago da existência, que ali aparece, mendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma filosofia. Aqui o tens agora em Barbacena. Logo que chegou, enamorou-se de uma viúva, senhora de condição mediana e parcos meios de vida; mas, tão acanhada, que os suspiros do namorado ficavam sem eco. Chamava-se Maria da Piedade. Um irmão dela, que é o presente Rubião, fez todo o possível para casá- -los. Piedade resistiu, um pleuris a levou.
Foi esse trechozinho de romance que ligou os dois homens. Saberia Rubião que o nosso Quincas Borba trazia aquele grãozinho de sandice, que um médico supôs achar-lhe? Seguramente, não; tinha-o por homem esquisito. É, todavia, certo que o grãozinho não se despegou do cérebro de Quincas Borba, − nem antes, nem depois da moléstia que lentamente o comeu. Quincas Borba tivera ali alguns parentes, mortos já agora em 1867; o último foi o tio que o deixou por herdeiro de seus bens. Rubião ficou sendo o único amigo do filósofo. Regia então uma escola de meninos, que fechou para tratar do enfermo. Antes de professor, metera ombros a algumas empresas, que foram a pique.
Durou o cargo de enfermeiro mais de cinco meses, perto de seis. Era real o desvelo de Rubião, paciente, risonho, múltiplo, ouvindo as ordens do médico, dando os remédios às horas marcadas, saindo a passeio com o doente, sem esquecer nada, nem o serviço da casa, nem a leitura dos jornais, logo que chegava a mala da Corte ou a de Ouro Preto.
− Tu és bom, Rubião, suspirava Quincas Borba.
− Grande façanha! Como se você fosse mau!
A opinião ostensiva do médico era que a doença do Quincas Borba iria saindo devagar. Um dia, o nosso Rubião, acompanhando o médico até à porta da rua, perguntou-lhe qual era o verdadeiro estado do amigo. Ouviu que estava perdido, completamente perdido; mas, que o fosse animando. Para que tornar-lhe a morte mais aflitiva pela certeza...?
− Lá isso, não, atalhou Rubião; para ele, morrer é negócio fácil. Nunca leu um livro que ele escreveu, há anos, não sei que negócio de filosofia...
− Não; mas filosofia é uma coisa, e morrer de verdade é outra; adeus.
(Adaptado de: ASSIS, Machado de. Quincas Borba. São Paulo: Companhia das Letras, 2012)
É, todavia, certo que o grãozinho não se despegou do cérebro de Quincas Borba (2º parágrafo).
O termo sublinhado pode ser substituído, sem prejuízo para o sentido original, por:
- contudo
- por isso
- além disso
- portanto
- nesse caso
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Gabarito
A
Comentário do professor
Contudo é a escolha correta porque desempenha o mesmo papel semântico de todavia no período apresentado.
Ambos são conjunções adversativas, usadas para introduzir uma ideia de contraste ou ressalva em relação ao que se afirma. No trecho, a palavra estabelece uma modificação da expectativa sobre o “grãozinho” no cérebro de Quincas Borba.
Comparando as frases, nota-se a equivalência:
É, todavia, certo que o grãozinho não se despegou do cérebro de Quincas Borba.
É, contudo, certo que o grãozinho não se despegou do cérebro de Quincas Borba.
Como a função sintática e o registro são os mesmos, a substituição por contudo preserva o sentido original do enunciado.
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