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Questão FC654501

– Bassau rarim ai montul?

Morfologia

FCC · 2025

Para responder à questão, considere a crônica "O homem que falava naiki" do escritor Luis Fernando Veríssimo (1936-2025).

 

Quando queriam dar uma ideia de erudição do dr. Solis,(d) as pessoas diziam:

– Basta dizer que ele fala naiki.

Ninguém sabia onde, no mundo, se falava naiki e o próprio dr. Solis, sempre muito circunspecto1, não ajudava. Dizia apenas:

– É uma língua do grupo dravídico...

Os pais apontavam o dr. Solis às crianças como exemplo de inteligência e cultura. Aliás, os dois exemplos da cidade eram o dr. Solis e o Lelo. O dr. Solis era o exemplo de inteligência e o Lelo, o exemplo de burrice. As crianças deviam estudar para não ser como o lelo. E se estudassem muito um dia ainda seriam como o dr. Solis.

Caravanas de estudantes iam à casa do dr. Solis. “Viemos beber da sua cultura”, dizia a professora. E as crianças, um pouco assustadas, rodeavam o dr. Solis na sua biblioteca. O dr. Solis sorria, pacientemente. Alguma pergunta?

– O senhor já leu todos esses livros?(c)

– Já.

Às vezes uma se arriscava e pedia:

– Diz alguma coisa em naiki.(e)

E o dr. Solis:

– Za cadu arrarmarral cadverno.

– Traduz.

Mas aquilo já era pedir demais.(a) A professora arrebanhava as crianças para irem embora. Estavam cansando a inteligência do dr. Solis.

 

Alguns céticos da cidade desconfiavam que o dr. Solis era um farsante. E prepararam uma armadilha. Um dia chegaram na casa do dr. Solis com a notícia de que aparecera na cidade, imagine, outra pessoa que falava naiki. O dr. Solis não se afobou. Perguntou onde estava essa pessoa. No hotel? Muito bem. Então precisava ir até lá conversar com ela.

A novidade, como podem imaginar, se espalhou rápido. O Lelo anunciou que ia haver um monólogo entre os dois, e em naiki. Quando o dr. Solis chegou no hotel havia um bom público para assistir ao encontro das duas inteligências. O forasteiro, outro farsante, contratado para pôr o dr. Solis à prova, já o recebeu com uma frase:

– Bassau rarim ai montul?

O dr. Solis franziu a testa e ficou olhando para o forasteiro, sem dizer nada. Depois disse:

– Como?

Já com um ar superior, o outro repetiu:

– Bassau rarim ai montul?

Suspense na plateia. O dr. Solis seria desmascarado? Será que os céticos tinham razão? Que todo este tempo o dr. Solis mentia para eles e realmente não sabia uma palavra em naiki? Nem "bom dia"?

– Repita, por favor – pediu o dr. Solis.

– Bassau rarim ai montul?

Aí o dr. Solis sacudiu a cabeça lentamente e, com um sorriso de divertida condescendência para seu interlocutor, comentou:

– Esses dialetos...

Foi carregado em triunfo pelas ruas da cidade.(b) Que cabeça! Na frente do cortejo ia o Lelo, gritando:

– É um potentado2. É um potentado!

 

(Adaptado de: VERISSIMO, Luis Fernando. Novas comédias da vida privada.

Porto Alegre: L&PM, 1996, p. 125-126)

 

1 circunspecto: reservado.

2 potentado: indivíduo poderoso.

É invariável quanto a gênero e a número a palavra sublinhada no seguinte trecho

  1. Mas aquilo já era pedir demais.
  2. Foi carregado em triunfo pelas ruas da cidade.
  3. O senhor já leu todos esses livros?
  4. Quando queriam dar uma ideia da erudição do dr. Solis.
  5. Diz alguma coisa em naiki.
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Gabarito

A

Comentário do professor

Mas aquilo já era pedir demais.

Demais aqui atua como advérbio de intensidade, qualificando o verbo pedir no sentido de "excessivamente" ou "mais do que é razoável".

Classe adverbial é invariável em gênero e número, portanto o termo não se flexiona; permanece "demais" independentemente de o sujeito ser masculino, feminino, singular ou plural.
Ex.: Era pedir demais. — Foram pedir demais. — Era pedir demais a elas.

Por essa razão, na frase proposta a palavra sublinhada é invariável, confirmando a alternativa correta.

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