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Questão FC654521

Leia o trecho do romance Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, para responder à questão. Nós poderíamos ter sido grandes amigos. Eu o convidaria para um jantar sábado à noite,

Semântica

FCC · 2026

Leia o trecho do romance Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, para responder à questão.

 

Nós poderíamos ter sido grandes amigos.

 

Eu o convidaria para um jantar sábado à noite, aqui em nosso apartamento, serviríamos um magnífico pernil de cordeiro acomodado em ramos de alecrim, um honesto Quinta da Bacalhoa, e ouviríamos, encantados, o último disco do Chico Buarque, uma coletânea da Dinah Washington, uma outra cantora que agora me foge o nome, adquirida na Tower Records, em Londres.

 

Seríamos apresentados à sua esposa, já vislumbrada rapidamente na piscina, e, uma ou duas taças, deixaríamos o sofá de veludo espanhol amarelo pelas duras e ásperas cadeiras de palha da cozinha, não tão grande quanto era nosso desejo, para ajudar a Célia, avental motivos-surrealistas, cuidando do assado e da salada. Eu lavaria a louça, ele e a mulher arrumariam a mesa, toalha, talheres, copos, descansos. Após o jantar, de novo esparramados no conforto da sala, nos perderíamos no torvelinho das conversas e, madrugada, quando já nem mais ânimo tivéssemos para trocar o cadê, a rua ausente de carros, uma leve por as crianças estarem na casa de algum coleguinha ou de parentes, se imiscuiria em nosso último assunto, e nos despediríamos, prometendo nos frequentar com alguma assiduidade.

 

O tempo solidificaria a relação.

 

Trocaríamos e-mails e encheríamos o computador de spams, correntes-da-felicidade, abaixo-assinados, alertas sobre a descoberta de novos vírus, as mais recentes modalidades de crimes, fotos indecentes, charges e até mesmo endereços interessantes, lojas virtuais de cedês e de livros, e descobriríamos afinidades que insuspeitávamos, e toda sexta-feira nos encontraríamos para o happy hour num barzinho da Lapa, "o melhor tira-gosto de São Paulo", e revelaríamos que a escola das crianças não é tão boa quanto imaginávamos, e confessaríamos que ambos mentíamos para os amigos sobre aventuras extraconjugais, e que, embora a colega assistente da diretoria existisse, a única vez que falei com ela foi para me desculpar por ter derrubado sua sobremesa no chão do refeitório, e chegaríamos em casa recendendo a álcool, e as mulheres reclamariam e diriam que "Homem é tudo igual", e no dia seguinte, sábado, acordaríamos cedo para comprar peixe e verduras no Mercado Municipal. Mas nós não nos conhecíamos. Nos vimos algumas vezes no elevador de serviço, a caminho da garagem do prédio, uma ou outra vez nas piscina, ele lendo a Veja, eu nadando com a Joana e o Afonsinho.

 

(Adaptado de: RUFFATO, Luiz. Eles eram muitos cavalos. São Paulo: Companhia das Letras, 2013)

 

A palavra sublinhada no trecho "e descobriríamos afinidades que insuspeitávamos" pode ser substituída, sem prejuízo para as relações de sentido e a correção gramatical, por:

  1. não desconfiávamos.
  2. não temíamos.
  3. importunamos.
  4. não deduzimos.
  5. incomodávamos.
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Gabarito

A

Comentário do professor

Insuspeitávamos é formada pelo prefixo in- (negação) + o verbo suspeitar conjugado na primeira pessoa do plural do pretérito imperfeito: suspeitávamos. A junção cria o sentido de "não suspeitávamos".

O verbo suspeitar equivale a desconfiar, imaginar a partir de indícios. Ao lhe acrescentar in-, obtém‑se a negação desse sentido, mantendo tempo e pessoa verbais. Assim, a expressão preserva a ideia de ausência de suspeita.

Portanto, a substituição por não desconfiávamos é adequada tanto semanticamente quanto gramaticalmente: conserva o tempo, a pessoa e o sentido original da frase.

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