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Questão FC654533

O que será da escrita sem solidão?

Semântica

FCC · 2022

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.

O que será da escrita sem solidão?

 

Já não resta na minha vida nenhuma solidão. Me pergunto se haverá solidão em algum lugar, se alguém é ainda capaz de estar só, de alcançar um estado de solidão. Não me refiro, claro, à penúria afetiva, ao abandono, ao desamparo, males diários que se encontram por toda parte, no meio da multidão. Penso mais num silêncio dilatadoa, vasto, num silêncio que é a ausência de notícias, de palavras, de ruídos. Penso num retiro íntimoa, um lugar em que já não se ouça a respiração ofegante do mundo.

 

Andei lendo Escrever, de Marguerite Duras, um relato de como ela construiu para si uma solidão densa, de como só assim se tornou capaz de escrever. “A solidão é aquilo sem o qual não fazemos nada”, ela diz. “Aquilo sem o qual já não vemos nada.” Para a escrita, nada seria mais necessário que a solidão, algum grau de asilo pessoalb seria sua condição imprescindível. Fiquei pensando o que será da escrita quando já não houver, em absoluto, a solidão. Fiquei pensando o que será da leitura quando não houver, em absoluto, silêncio.b

 

Por anos, escrever me exigiu uma busca irrequieta por espaços calmos, espaços isolados do alvoroçoc que nos cerca, que nos acossa. Quando não consegui construir a solidão em minha casa, me refugiei no consultório abandonadoc do meu pai, me exilei em outro país, no apartamento dos meus avós mortos, me recolhi em cantos ocultos de bibliotecas. Como se não pudesse ser visto, como se escrever fosse uma subversão, um segredo.

 

A esta altura desisti de estar só. Me falta tempo para essas fugas, e já percebi que o mundo dispõe de fartos recursos para me achar onde quer que eu esteja. Quando consigo ignorar seus apelose, ouço minhas filhas no quarto ao lado, brincando, rindo, cogito me juntar a elas e me reprimo. Escrever deixou de ser ato subversivod e passou a ser, por vezes, cruel: ignoro minha filha que esmurra a porta e clama pelo pai enquanto não termino a frase de vez. Quando elas partem, ainda não há solidão: a casa reverberae os seus gritos, recria sua presença em infinitos objetos. Nesta casa nunca mais haverá solidão, e tudo o que eu escrever aquid trará essa marca indelével.

 

(Adaptado de: FUKS, Julián. Lembremos do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2022, p. 119-120)

 

Considerando-se o contexto, depreende-se que há uma oposição de sentido entre os segmentos

  1. silêncio dilatado / retiro íntimo
  2. asilo pessoal / absoluto silêncio
  3. isolados do alvoroço / consultório abandonado
  4. ato subversivo / tudo o que eu escrever aqui
  5. seus apelos / a casa reverbera
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Gabarito

D

Comentário do professor

"Escrever deixou de ser um ato subversivo" indica que escrever costumava ser um gesto de rebelião: buscar silêncio e isolamento contra o ruído do mundo. A expressão ato subversivo remete à intenção e à postura do sujeito como oposição ao contexto sonoro e social.

Já a sequência "tudo o que eu escrever aqui trará essa marca indelével" aponta para a produção textual como veículo contaminado pelo ambiente doméstico. Tudo o que eu escrever aqui refere-se ao conteúdo efetivo, impregnado pela presença e pelos ruídos das filhas e pela reverberação da casa.

Portanto há oposição entre a ideia de atitude contestatória (escrever como subversão do barulho) e a de produto marcado (o texto carregado pelo barulho). O contraste é semântico: intenção versus efeito, rebelião versus marca indelével do cotidiano.

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