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Questão FC654541

Atenção: Para responder à questão, leia o texto abaixo. A cabeça do caboclo é muito diferente da cabeça de quem mora na cidade e vive exposto aos meios de comunicação de massa. Cab

Semântica

FCC · 2026

Atenção: Para responder à questão, leia o texto abaixo.

 

A cabeça do caboclo é muito diferente da cabeça de quem mora na cidade e vive exposto aos meios de comunicação de massa. Caboclo é a gente mais real-fantasiosa que há. Ao mesmo tempo que é desconfiado, como seus ancestrais indígenas, é também muito crédulo. Admira a retórica na boca de gente elegante e enganadora. Concebe-se como o matuto não merecedor de privilégios dos entendidos. São sonhadores, mas sabem como ninguém que sonho é só para se sonhar e deve ficar sempre somente na cabeça. Caboclo gosta mesmo é da orgia da mata, com a excelsa cantoria da passarinhada, de insetos, de répteis e de mamíferos selvagens ou domesticados. Embebeda-se com o cheiro das plantas nativas e capins ou árvores plantadas. Reverencia a água, uma de suas maiores fontes de alimentação. A natureza é sua maior sedutora e musa inspiradora. Caboclo não se casa. Junta-se. E comunga tudo com a(o) companheira(o): trabalho, esperança, sonhos, pesares, ignorâncias, enfados, boia, pirão, alegrias e prazeres caboclos. E nem precisa de cartório para legalizar as coisas. Vale a palavra de honra do caboclo. Cartório é coisa para o citadino, que deve se precaver do calote civilizado. Mas caboclo também não é santo. Mente. E quando mente, jura por todos os santos que está falando a verdade. Cruel é o coração que não lhe acredita. A mulher cabocla não engravida. Embucha. Fica de barriga. Emprenha. No mato, esta não sofre dos melindres da mulher urbana. Tudo o que vier a sentir faz parte da trama da multiplicação.

 

(Adaptado de: SANTOS Janete. Ideologia cabocla. 61 cronistas do Amapá, 2020)

 

Na expressão “gente mais real-fantasiosa que há”, o autor

  1. cria um contraste expressivo, unindo realidade e imaginação como traços da identidade.
  2. indica uma incongruência gramatical, sem função semântica relevante no contexto.
  3. reforça a ideia de fantasia, utilizando a contradição apenas como efeito ornamental.
  4. confere ao caboclo um sentido pejorativo, aproximando-o da ingenuidade e da ilusão.
  5. expressa uma ironia velada, que aponta a fragilidade intelectual da população rural.
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Gabarito

A

Comentário do professor

“gente mais real-fantasiosa que há” funciona como um oxímoro, isto é, une termos aparentemente opostos para criar um contraste expressivo. A justaposição de realidade e imaginação chama imediatamente a atenção para uma característica central do retrato.


No texto, esse efeito é confirmado: o caboclo é descrito como desconfiado (pé no chão) e, ao mesmo tempo, crédulo e sonhador. A expressão compacta essa ambivalência, mostrando que atitudes práticas e fantasiosas coexistem.


O recurso retórico torna a identidade apresentada mais rica e plausível. Em vez de reduzir o personagem a um traço único, o autor destaca sua complexidade cultural, valorizando a convivência entre o concreto e o imaginário.

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