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Questão FC654542

Leia o texto. Da desigualdade entre os homens Disse Plutarco que a diferença entre um animal e outro é menor do que a que vai de um a outro homem. Referia-se ele à alma e às qualid

Semântica

FCC · 2026

Leia o texto.

Da desigualdade entre os homens

 

Disse Plutarco que a diferença entre um animal e outro é menor do que a que vai de um a outro homem. Referia-se ele à alma e às qualidades intelectuais. Por mim, não hesitaria em ser mais peremptório, dizendo que a diferença entre tal e tal homem é maior do que entre tal homem e tal bicho. O espírito humano comporta tantos graus quantas braças vão daqui ao céu.

 

No que concerne à apreciação das coisas, é espantoso que tudo julgando pelas suas qualidades específicas não nos encaremos da mesma maneira. Elogiamos um cavalo por ser vigoroso e ágil, e não por causa do arreio; elogiamos o galgo pela velocidade e não pela coleira; por que, pois, não apreciarmos o homem pelas suas qualidades específicas? É necessário julgar o homem em si e não pelos seus adornos. Como diz espirituosamente um filósofo do passado: “Sabeis por que achais grande esse homem? Porque o medis com o pedestal.”

 

Os cortesãos elogiavam uma de feita o imperador Juliano porque se esforçava por ser justo. “Orgulhar-me-ia de vossas louvações — disse — se viessem de pessoas que ousassem denunciar e censurar meus atos, caso me conduzisse de outra maneira.” Os aduladores de Alexandre, o Grande, repetiam-lhe sem descontinuar que ele era filho de Júpiter. Certa vez, olhando o sangue que lhe escorria de um ferimento, disse ele: “Então, que vos parece? Não achais que é um sangue vermelho como o de qualquer ser humano? Ou ele é da cor do sangue que o poeta Homero põe nos ferimentos dos deuses?”

 

Se um homem não tiver valor próprio não lho dará o império do mundo. Mesmo que as jovens o disputem, que por toda parte nasçam rosas sob seus pés, de que servirá tudo isso se tem a alma grosseira e o espírito lerdo? Sem vigor e sem espírito não se chega a sentir a plena felicidade, sequer a volúpia. O valor das coisas depende de quem as possui: boas para os que sabem utilizá-las, são más para quem as emprega mal. Para saborear os bens, quaisquer que sejam os que nos outorga o destino, cumpre ter o bom sentimento que a sensação cria.

 

(Adaptado de: MONTAIGNE, Michel. Ensaios. São Paulo: Editora 34, 2016. p. 287-294, passim)

 

“Sabeis por que achais grande esse homem? Porque o medis com o pedestal”

 

A linguagem figurada do segmento sublinhado na frase acima tem como correspondência de sentido, em linguagem denotativa, este enunciado:

  1. A solidez de um homem tem por base suas discretas qualidades.
  2. Avalia-se alguém de modo injusto quando seus defeitos humanos são realçados.
  3. Costuma-se coroar com louros um homem de evidentes predicados.
  4. Há quem reconheça o mérito de alguém por conta de honra já concedida.
  5. O prestígio público costuma decorrer de algum efetivo merecimento.
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Gabarito

D

Comentário do professor

“Porque o medis com o pedestal” expressa, em figura, que se avalia alguém pela base que o sustenta, e não pela pessoa em si. O pedestal representa elementos externos: honra, título, posição social, fama ou privilégios que dão a impressão de superioridade.


Logo, a frase quer dizer que muitos reconhecem a grandeza de alguém por causa da honra já conferida, e não por qualidades intrínsecas. A avaliação é feita com apoio do pedestal, ou seja, pelo que foi dado ao indivíduo, não pelo seu valor próprio.


Essa leitura corresponde exatamente à alternativa: a pessoa é considerada grande em função de uma honra prévia, não pelo seu mérito pessoal.

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