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Questão FC654554

Considere o texto abaixo para responder a questão. Fernando Pessoa é não apenas um dos maiores poetas modernos, mas um dos maiores poetas da modernidade, ou seja, um dos poetas que

Semântica

FCC · 2022

Considere o texto abaixo para responder a questão.

Fernando Pessoa é não apenas um dos maiores poetas modernos, mas um dos maiores poetas da modernidade, ou seja, um dos poetas que mais longe levaram a experiência tanto das possibilidades quanto do desencanto do mundo moderno. Não que ele esteja próximo das veleidades contemporâneas. A modernidade a que me refiro não se confunde com a mera contemporaneidade. Deixemos de lado nosso provincianismo temporal. A modernidade consiste em primeiro lugar na época da desprovincianização do mundo: aquela que, do ponto de vista temporal, abre-se com o humanismo que, voltando os olhos para o mundo clássico, relativiza o mundo contemporâneo; e que, do ponto de vista espacial, abre-se com as descobertas geográficas, celebradas pelo próprio Pessoa, quando diz, por exemplo, no altíssimo poema “O infante”, inspirado em d. Henrique, o Navegador:

 

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma, Que o mar unisse, já não separasse. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente, Clareou, correndo, até o fim do mundo, E viu-se a terra inteira, de repente, Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português. Do mar e nós em ti nos deu sinal. Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!

 

O processo de cosmopolitização que produziu o mundo moderno não se restringiu às descobertas dos humanistas e dos navegadores, pois também incluiu explorações científicas, artísticas etc. Ora, a abertura de novos horizontes tornou possível a compreensão do caráter limitado dos antigos horizontes. As ideias e as crenças tradicionais puderam ser postas em questão.

 

A filosofia moderna se formou a partir do ceticismo mais radical que se pode imaginar: a dúvida hiperbólica de Descartes, segundo a qual é possível que tudo o que pensamos saber não tenha consistência maior que a de sonhos, alucinações, ataques de loucura etc. Com razão, Alexandre Koyré afirmou que essa dúvida foi “a mais tremenda máquina de guerra contra a autoridade e a tradição que o homem jamais possuiu”.

 

Pode-se dizer então que o homem moderno é aquele que viu desabarem, ao sopro da razão, os castelos de cartas das crenças tradicionais: o homem que caiu em si. Em última análise, é isso que o obriga a instaurar, por exemplo, os procedimentos jurídicos modernos como processos abertos à razão crítica, públicos, e cujos resultados estão sempre, em princípio, sujeitos a ser revistos ou refutados.

 

(Adaptado de: CÍCERO, Antonio. A poesia e a crítica: Ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, edição digital)

 

O termo empregado em sentido figurado está sublinhado em:

  1. o homem moderno é aquele que viu desabarem, ao sopro da razão, os castelos de cartas das crenças tradicionais. (4º parágrafo)
  2. O processo de cosmopolitização que produziu o mundo moderno não se restringiu às descobertas dos humanistas e dos navegadores. (2º parágrafo)
  3. Não que ele esteja próximo das veleidades contemporâneas. (1º parágrafo)
  4. é possível que tudo o que pensamos saber não tenha consistência maior que a de sonhos (3º parágrafo).
  5. essa dúvida foi “a mais tremenda máquina de guerra contra a autoridade e a tradição que o homem jamais possuiu”. (3º parágrafo)
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Gabarito

A

Comentário do professor

"o homem moderno é aquele que viu desabarem, ao sopro da razão": o termo sopro não está no sentido literal de ar que sai dos pulmões, mas em sentido figurado. Aqui ocorre personificação (prosopopeia), pois à razão, conceito abstrato, é atribuída a ação humana de soprar.

Essa figura cria uma imagem: a razão age como vento capaz de dissipar os frágeis castelos de cartas das crenças tradicionais. Assim, conotação e imagem ressaltam a força transformadora e crítica da razão e a fragilidade do que foi desafiado.

Em síntese, sopro é emprego figurado que reforça semanticamente a ideia central do trecho por meio de uma figura de linguagem.

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