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Questão FC654559

Nosso conhecimento não era de estudar em livros. Era de pegar de apalpar de ouvir e de outros sentidos. Seria um saber primordial?

Semântica

FCC · 2022

Para responder a questão considere o poema abaixo do escritor mato-grossense Manoel de Barros.

 

Nosso conhecimento não era de estudar em livros. Era de pegar de apalpar de ouvir e de outros sentidos. Seria um saber primordial?

 

Nossas palavras se ajuntavam uma na outra por amor e não por sintaxe.

 

A gente queria o arpejo. O canto. O gorjeio das palavras. Um dia tentamos até de fazer um cruzamento de árvores com passarinhos para obter gorjeios em nossas palavras.

 

Não obtivemos. Estamos esperando até hoje. Mas bem ficamos sabendo que é também das percepções primárias que nascem arpejos e canções e gorjeios. Porém naquela altura a gente gostava mais das palavras desbocadas.

 

Tipo assim: Eu queria pegar na bunda do vento. O pai disse que vento não tem bunda. Pelo que ficamos frustrados. Mas o pai apoiava a nossa maneira de desver o mundo que era a nossa maneira de sair do enfado.

 

A gente não gostava de explicar as imagens porque explicar afasta as falas da imaginação.

 

A gente gostava dos sentidos desarticulados como a conversa dos passarinhos no chão a comer pedaços de mosca.

 

Certas visões não significavam nada mas eram passeios verbais. 

 

A gente sempre queria dar brasão às borboletas. A gente gostava bem das vadiações com as palavras do  que das prisões gramaticais.

 

Quando o menino disse que queria passar para as palavras suas peraltagens até os caracóis apoiaram. A gente se encostava na tarde como se a tarde fosse um poste.

 

A gente gostava das palavras quando elas perturbavam os sentidos normais da fala. Esses meninos faziam parte do arrebol como os passarinhos.

 

(BARROS, Manoel de. Menino do mato. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015)

 

Mas o pai apoiava a nossa maneira de desver o mundo / que era a nossa maneira de sair do enfado"

 

No trecho acima, o eu lírico caracteriza sua “maneira de desver o mundo” como um modo de escapar

  1. do tédio.
  2. da imaginação.
  3. da ambiguidade.
  4. do autoritarismo.
  5. do ceticismo.
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Gabarito

A

Comentário do professor

No verso citado, a expressão “maneira de desver o mundo” é definida pelo eu lírico como uma forma de escapar do que ele chama de “enfado”.

O termo enfado corresponde diretamente a tédio, isto é, aborrecimento ou monotonia. A frase “era a nossa maneira de sair do enfado” estabelece essa equivalência de sentido.

O contexto do poema reforça essa leitura: a linguagem lúdica, as “vadiações com as palavras” e a preferência por imagens livres indicam busca por dinamismo e imaginação para romper a mesmice.

Portanto, interpretar a “maneira de desver o mundo” como um modo de escapar do tédio é coerente com a escolha vocabular e o tom celebratório das experiências descritas.

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