Questão FC654561
O elogio do vira-lata e outros ensaios, de Eduardo Giannetti. A ciência destrói o seu passado. Os clássicos da literatura científica, como os tratados hipocráticos, o Le Monde de D
Semântica
FCC · 2021
O elogio do vira-lata e outros ensaios, de Eduardo Giannetti.
A ciência destrói o seu passado. Os clássicos da literatura científica, como os tratados hipocráticos, o Le Monde de Descartes ou a Philosophia Botanica de Lineu, foram obras que marcaram época, mas que a passagem do tempo reduziu à condição de peças de antiquário e objeto de interesse restrito a especialistas em história da ciência. Nenhum cientista que se preze aprende o seu ofício destrinchando os clássicos de sua disciplina.
Com a filosofia é diferente. Os clássicos da literatura filosófica, como os diálogos platônicos, as Meditações de Descartes ou o Leviatã de Hobbes, são obras que parecem dotadas do dom da eterna juventude. Embora também se prestem à lupa antiquária do historiador de ideias, elas conseguem de algum modo driblar o tempo e falar diretamente aos espíritos vivos das novas gerações. A filosofia, como a arte, não enterra o seu passado.
A diferença, é certo, resulta em parte da ausência de um critério bem definido de progresso na história da filosofia. Mas não é só. A consciência da nossa ignorância cresce de mãos dadas com o avanço do saber científico. Como observa com certa malícia Adam Smith na Teoria dos Sentimentos Morais, ao comentar a dificuldade de refutar conclusivamente teorias no campo da ética, a progressividade das ciências naturais também reflete a sua maior vulnerabilidade e propensão ao erro.
(GIANNETTI, Eduardo. O elogio do vira-lata e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2018)
Considere os seguintes trechos do texto.
I. Nenhum cientista que se preze aprende o seu ofício destrinchando os clássicos de sua disciplina. (1o parágrafo)
II. Embora também se prestem à lupa antiquária do historiador de ideias, elas conseguem de algum modo driblar o tempo e falar diretamente aos espíritos vivos das novas gerações. (2o parágrafo)
III. A filosofia, como a arte, não enterra o seu passado. (2o parágrafo)
IV. A consciência da nossa ignorância cresce de mãos dadas com o avanço do saber científico. (3o parágrafo)
Estão empregadas em sentido figurado as expressões sublinhadas em
- I e II, apenas.
- I e III, apenas.
- II e IV, apenas.
- II, III e IV, apenas.
- I, II, III e IV.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A alternativa D é correta porque as três expressões assinaladas aparecem em sentido figurado (conotativo), ou seja, não devem ser entendidas literalmente no contexto do texto.
A expressão lupa antiquária não remete a uma lupa física; sugere tratamento de algo como peça de museu ou assunto restrito a historiadores, indicando perda de utilidade prática dos clássicos científicos.
O verbo enterrar também não significa sepultar literalmente; assume o sentido de enterrar simbolicamente: encerrar, abandonar ou tornar inacessível. Aqui indica que a filosofia não deixa seu passado desaparecer.
A locução de mãos dadas é usada conotativamente para significar simultaneidade e relação estreita: a consciência da ignorância cresce juntamente com o avanço científico. Essas interpretações justificam a escolha da alternativa.
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