Questão FC654570
– Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros?
Semântica
FCC · 2026
Atenção: Considere a crônica de Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.
Quando a senhora foi descer do lotação, o motorista coçou a cabeça: – Mil cruzeiros! Como é que a senhora quer que eu troque mil cruzeiros?(e)
– Desculpe, me esqueci completamente de trazer trocado.
– Não posso não, a madame não leu o aviso – olha ele ali – que o troco máximo é de 200 cruzeiros?
– Eu sei, mas que é que hei de fazer agora? O senhor nunca esqueceu nada na vida?
– Quem sabe se procurando de novo na bolsa...(b)
Ela vasculhava, remexia, nada. Nenhum cavalheiro (como se dizia no tempo do meu pai) se moveu para salvar a situação, oferecendo troco ou se prontificando a pagar a passagem. Àquela hora não havia cavalheiros, pelo menos na lotação.(c)
– Então o senhor me dá licença de saltar e ficar devendo.
– Pera aí. Vou ver se posso trocar.
Podia. Tirou do bolso de trás um bolo respeitável, foi botando as cédulas sobre o joelho, meticulosamente.
– Tá aqui o seu troco. De outra vez a madame já sabe, hem?
Ela desceu, o carro já havia começado a chispar, como é destino dos lotações, quando de repente o motorista freou e botou as mãos à cabeça: – Os senhores acreditam que em vez de guardar a nota de mil, eu de burro, devolvi com o troco?
Botou a cabeça fora do carro, à procura da senhora, que atravessava a rua, lá atrás: – Dona! Ó dona! A nota de mil cruzeiros!
Os passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora.
– Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros?
Encostou o veículo e, num gesto solene: – Vou buscar meu cabral. A partir deste momento, confio este carro, com todos os seus pertences, à distinção dos senhores passageiros.(a)
– Deixa que eu vou! – disse um deles, garoto.(d) E precipitou-se para fora, antes do motorista.
Via-se o garoto correndo para alcançar a senhora, tocando-a pelo braço, os dois confabulando. Ela abria de novo a bolsa, tirava objetos, o pequeno ajudava. Os passageiros já se mostravam impacientes com a demora da expedição. O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros? O Serviço de Trânsito? Voltou o garoto, sem a nota. A senhora tinha apenas 987 cruzeiros, ele vira e jurava por ela.
– Tão vendo? Um prejuízo desses antes do almoço é de tirar a fome e a vontade de comer. – disse em tom frio, sem revolta, como simples remate. E tocou.
Perto do colégio, o garoto desceu, repetindo, encabulado: – Pode acreditar, ela não tinha mesmo o dinheiro não.
O motorista respondeu-lhe baixinho: – Eu sei. Já vi que está ali debaixo da caixa de fósforos. Mas se eu disser isso, esse povo me mata.
(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. et al. Para gostar de ler, v.2.
São Paulo: Ática, 1966, p. 43-45)
Expressão expletiva é aquela que não exerce função sintática.
Constitui uma expressão expletiva aquela sublinhada no seguinte trecho:
- A partir deste momento, confio este carro, com todos os seus pertences, à distinção dos senhores passageiros.
- — Quem sabe se procurando de novo na bolsa...
- Aquela hora não havia cavalheiros, pelo menos no lotação.
- — Deixa que eu vou! — disse um deles, garoto.
- Como é que a senhora quer que eu troque mil cruzeiros?
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
Expressão expletiva é elemento que não exerce função sintática e pode ser suprimido sem comprometer a estrutura ou o sentido essencial da oração.
No trecho "Como é que a senhora quer que eu troque mil cruzeiros?", a sequência "Como é que" atua apenas como marcador coloquial de pergunta, sem integrar sujeito, predicado ou objeto.
Aplicando o teste da supressão: retirando "Como é que" obtemos "A senhora quer que eu troque mil cruzeiros?", frase gramaticalmente correta e com o mesmo conteúdo interrogativo.
Portanto, "Como é que" é expressão expletiva porque é dispensável para a sintaxe e o sentido da oração; sua presença apenas enfatiza ou torna mais coloquial a pergunta.
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