Questão FC654584
Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo. O meu ofício O meu ofício é escrever, e sei bem disso há muito tempo. Espero não ser mal-entendida: não sei nada sobre o valor
Semântica
FCC · 2022
Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.
O meu ofício
O meu ofício é escrever, e sei bem disso há muito tempo. Espero não ser mal-entendida: não sei nada sobre o valor daquilo que posso escrever. Quando me ponho a escrever, sinto-me extraordinariamente à vontade e me movo num elemento que tenho a impressão de conhecer extraordinariamente bem: utilizo instrumentos que me são conhecidos e familiares e os sinto bem firmes em minhas mãos. Se faço qualquer outra coisa, se estudo uma língua estrangeira, se tento aprender história ou geografia, ou tricotar uma malha, ou viajar, sofro e me pergunto como é que os outros conseguem fazer essas coisas. E tenho a impressão de ser cega e surda como uma náusea dentro de mim.
Já quando escrevo nunca penso que talvez haja um modo mais correto, do qual os outros escritores se servem. Não me importa nada o modo dos outros escritores. O fato é que só sei escrever histórias. Se tento escrever um ensaio de crítica ou um artigo sob encomenda para um jornal, a coisa sai bem ruim. O que escrevo nesses casos tenho de ir buscar fora de mim. E sempre tenho a sensação de enganar o próximo com palavras tomadas de empréstimo ou furtadas aqui e ali.
Quando escrevo histórias, sou como alguém que está em seu país, nas ruas que conhece desde a infância, entre as árvores e os muros que são seus. Este é o meu ofício, e o farei até a morte. Entre os cinco e dez anos ainda tinha dúvidas e às vezes imaginava que podia pintar, ou conquistar países a cavalo, ou inventar uma nova máquina. Mas a primeira coisa séria que fiz foi escrever um conto, um conto curto, de cinco ou seis páginas: saiu de mim como um milagre, numa noite, e quando finalmente fui dormir estava exausta, atônita, estupefata.
(Adaptado de: GINZBURG, Natalia. As pequenas virtudes. Trad. Maurício Santana Dias. São Paulo: Cosac Naify, 2015, p, 72-77, passim)
Considerando-se o contexto, traduz-se o sentido de um segmento do texto em:
- me movo num elemento (1º parágrafo) = mobiliza-me um estímulo
- como uma náusea dentro de mim. (1º parágrafo) = tal uma implosão em mim arrefecida
- palavras tomadas de empréstimo (2º parágrafo) = a quem emprestei meus nomes
- saiu de mim como um milagre, (3º parágrafo) = manou miraculosamente de mim
- exausta, atônita, estupefata. (3º parágrafo) = dolente, surpresa, indignada
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Gabarito
D
Comentário do professor
"saiu de mim como um milagre" exprime que algo se originou da autora de forma inesperada e prodigiosa. A alternativa traduz por "manou miraculosamente de mim", mantendo a ideia de procedência e surpresa.
O verbo manar tem sentido de brotar, originar-se ou sair de uma fonte. Aplicado à criação literária, indica que a história emergiu dela, não foi trazida de fora.
A expressão "como um milagre" qualifica o modo dessa emergência: não apenas surgiu, mas o fez de forma surpreendente, quase inexplicável. Esse valor corresponde a "miraculosamente".
Portanto a tradução proposta preserva tanto a ação de surgir como a intensidade admirada do acontecimento, sendo semântica e estilisticamente adequada.
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