FC ConcursosFC Concursos

Questão FC654595

Certo, é preciso estimular as crianças para que elas se desenvolvam na interação com o mundo. Mas o problema é que, sem tédio maçante, ninguém, criança ou adulto, consegue inventar

Semântica

FCC · 2026

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.

 

A favor do tédio

 

Alguns livros recentes tratam dos malefícios de nossa constante vontade de encontrar diversões. Como sugere o título de um deles (O vício da distração), de Alex Pange, a vontade de se distrair seria uma forma de dependência. Também já li artigos de revista sobre “os surpreendentes benefícios do tédio”.

 

Os livros não me pareceram imperdíveis. E os artigos nas revistas de grande circulação citam pesquisas por ouvir dizer. Mas tanto faz. O conjunto manifesta um novo clima segundo o qual a necessidade de sermos entretidos e estimulados continuamente não tornaria nossa vida mais rica e variada; ao contrário, é possível que essa disparidade empobreça nossa experiência.

 

Já foi dito por evolucionistas que a sorte de nossa espécie foi sua fraqueza: enquanto passávamos horas a fio escondidos e calados nos arbustos, esperando as feras passarem, a imobilidade e o tédio forçados produziriam o surgimento da consciência, do pensamento e da fantasia. Que tal aplicar essa hipótese no campo da educação? O que é mais “educativo” para as crianças? A diversão? Ou a chance de se entediar?

 

Umberto Eco atribui ao filósofo Benedetto Croce uma frase que ele cita com frequência: “O primeiro dever dos jovens é o de se tornar velhos”. Esse slogan não tem como ser muito popular numa época em que o primeiro dever dos velhos é o de parecerem jovens. De fato, em nossa época os adultos não ajudam os jovens a envelhecer; eles preferem mantê-los na mesma criancice que eles desejam para si.

 

Certo, é preciso estimular as crianças para que elas se desenvolvam na interação com o mundo. Mas o problema é que, sem tédio maçante, ninguém, criança ou adulto, consegue inventar para si uma vida interior. E para que serve uma vida interior? Se forem pensamentos aos quais recorremos quando não temos nada para fazer, não é mais simples a gente se manter ocupado e não precisar da tal vida interior?

 

O problema é que há uma boa parte da vida exterior que, sem vida interior, é totalmente insossa. Se não acredita, tente se envolver com as artes, com as amizades ou com o sentimento amoroso levando apenas o ser que você tenha esvaziado. Mesmo entre outras espécies, há lições a observar. Os gatos, por exemplo, são ótimos administradores de seu tédio. Eles sabem se divertir muito bem, quando a ocasião se apresenta, mas também sabem não fazer nada com muita categoria. Nisso, eles batem os cachorros, que sempre parecem aliviados quando finalmente têm algo para fazer.

 

(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Aproveitar a vida e suas dores.

São Paulo: Planeta, 2025. p. 159-162)

 

Referindo-se à nossa vida exterior e à nossa vida interior, o autor estabelece entre elas uma relação de

  1. independência, uma vez que cada uma tem um método próprio de autoafirmação.
  2. contiguidade, sendo difícil estabelecer um claro limite entre suas áreas de atuação.
  3. complementaridade, quando favorecido um enriquecimento recíproco entre ambas.
  4. causalidade, já que toda exteriorização é um efeito da interioridade.
  5. suplência, pois a falta de uma pode ser contornada pela afirmação da outra.
Mostrar resposta e comentário

Gabarito

Certo

Comentário do professor

Complementaridade: o autor mostra que vida interior e vida exterior se enriquecem mutuamente. Sem a primeira, a segunda fica “insossa”; sem momentos de tédio que alimentem pensamentos e fantasia, as experiências externas perdem profundidade.


Para o texto, a vida interior é o conjunto de imaginação, reflexão e fantasia que nasce em espaços de ociosidade. A vida exterior reúne artes, amizades e relações amorosas que fornecem matéria-prima para essas reflexões.


A relação é recíproca: a vida exterior oferece estímulos que alimentam a vida interior; por sua vez, a vida interior dá sentido, cor e intensidade às vivências externas. Assim se configura uma relação de complementaridade, com ganho mútuo entre ambas.

Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em

Continue aprendendo