Questão FC654634
9. - Deixa com ele, seu burro. Não vê que eu não posso segurar nada?
Sintaxe
FCC · 2026
Considere a crônica "No ônibus", do escritor Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.
1. A senhora subiu, Deus sabe como, em companhia de dois garotos. Cada garoto com sua merendeira e sua pasta de livros e cadernos indispensáveis para a aquisição dos preliminares da sabedoria. No ônibus não cabia mais ninguém. A bem dizer, não cabia nem o pessoal que se espremia lá dentro em estado de sardinha.(b) Na massa compacta de gente, ou de seções de gente que a vista alcançava, percebi aquelas mãozinhas tentando segurar as pastas atochadas.
2. - Deixa que eu carrego - falei na direção de um dos braços a meu alcance, executando um movimento complicado, para enxergar os rostos dos garotos. O menor olhou-me com surpresa e hesitação, porém o mais velho estendeu o braço, e o primeiro, depois de uma cotovelada ministrada pelo segundo, imitou-o. Fiquei de posse de duas bojudas pastas escolares, que acomodei da melhor maneira possível sobre os joelhos. Conheço perfeitamente a técnica de carregar embrulhos dos outros. Deve-se colocá-los de tal modo que fiquem seguros sem que seja necessário pôr a mão em cima deles. São coisas sagradas.
3. A voz da senhora saiu daquele bolo humano:
4. - Agradece ao moço, Serginho. Agradece, Raul.
5. Raul (o mais crescido) obedeceu, mas Serginho manteve-se reservado.(a) Mal se passaram alguns minutos, senti que a pasta de cima escorregava mansamente do meu colo. Muito de leve, a mão esquerda de Serginho, escondida sob um lenço, puxava-a para fora. Compreendi que ele prezava acima de tudo a sua pasta, e deixei que a tirasse. A mãe ordenou:
6. - Serginho, deixe a pasta com o moço!
7. Teve de levantar a voz, para torná-la enérgica. Passageiros em redor começaram a sorrir. Tive de sorrir também. Muito a contragosto, Serginho voltou a confiar-me sua querida pasta. Um estranho mereceria carregá-la? E se fugisse com ela? Como bem podem imaginar, Serginho suspeitava de minha honorabilidade, e os circunstantes se deliciavam com a suspeita.
8. Mais alguns quarteirões, Serginho repete a manobra. Dessa vez, é radical. Toma sua pasta e a de Raul. Raul protesta:
9. - Deixa com ele, seu burro. Não vê que eu não posso segurar nada?
10. A mãe, em apoio de Raul, exprobra o procedimento de Serginho. Este capitula, mas em termos. Só me restitui a pasta do irmão. A sua não correrá o risco. Coloca-a sobre o peito, sob as mãos cruzadas, como levaria o Santo Graal.
11. - Este menino é impossível. Desculpe, cavalheiro.(c)
12. Não vejo o rosto da senhora, mas sua voz é doce, e compensa-me da desconfiança do Serginho. Sorrio para este, enquanto retribuo:(d) "Oh, minha senhora, por favor! Até que o seu filhinho é engraçado."
13. Engraçado? Serginho faz-me uma careta e ferra-me um beliscão. A assistência ri. A mãe ferra outro em Serginho, que dispara a chorar.(e) Bonito. É no que dá carregar embrulho dos outros.
(ANDRADE, Carlos Drummond de, 70 historinhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 105-107. Adaptado)
Observa-se o emprego de vírgula para isolar um vocativo no seguinte trecho:
- Raul (o mais crescido) obedeceu, mas Serginho manteve-se reservado.
- A bem dizer, não cabia nem o pessoal que se espremia lá dentro em estado de sardinha.
- - Este menino é impossível. Desculpe, cavalheiro.
- Sorrio para este, enquanto retribuo:
- A mãe ferra outro em Serginho, que dispara a chorar.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Vocativo é a palavra ou expressão usada para chamar ou dirigir-se diretamente a alguém. Não integra a estrutura sintática da frase, por isso deve ser separada por pontuação que marque a pausa, normalmente a vírgula.
No trecho "Desculpe, cavalheiro." a palavra cavalheiro funciona como vocativo: o falante dirige-se ao interlocutor. A vírgula antes do vocativo indica essa interpelação e sinaliza a entonação de chamada.
Regra prática: quando o vocativo vem no final, coloca-se vírgula antes; quando vem no início, vírgula depois; e, quando estiver no meio, aparece entre vírgulas. Assim, a pontuação em "Desculpe, cavalheiro." está correta por isolar o vocativo.
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