Questão FC654653
– Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros?
Sintaxe
FCC · 2026
Atenção: Considere a crônica de Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.
Quando a senhora foi descer do lotação, o motorista coçou a cabeça: – Mil cruzeiros! Como é que a senhora quer que eu troque mil cruzeiros?
– Desculpe, me esqueci completamente de trazer trocado.
– Não posso não, a madame não leu o aviso – olha ele ali – que o troco máximo é de 200 cruzeiros?
– Eu sei, mas que é que hei de fazer agora? O senhor nunca esqueceu nada na vida?
– Quem sabe se procurando de novo na bolsa...
Ela vasculhava, remexia, nada. Nenhum cavalheiro(b) (como se dizia no tempo do meu pai) se moveu para salvar a situação,(b) oferecendo troco ou se prontificando a pagar a passagem. Àquela hora não havia cavalheiros, pelo menos na lotação.
– Então o senhor me dá licença de saltar e ficar devendo.
– Pera aí. Vou ver se posso trocar.(a)
Podia. Tirou do bolso de trás um bolo respeitável, foi botando as cédulas sobre o joelho, meticulosamente.
– Tá aqui o seu troco. De outra vez a madame já sabe, hem?
Ela desceu, o carro já havia começado a chispar, como é destino dos lotações, quando de repente o motorista freou e botou as mãos à cabeça: – Os senhores acreditam que em vez de guardar a nota de mil, eu de burro, devolvi com o troco?
Botou a cabeça fora do carro, à procura da senhora, que atravessava a rua, lá atrás: – Dona! Ó dona! A nota de mil cruzeiros!
Os passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora.(d)
– Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros?
Encostou o veículo e, num gesto solene: – Vou buscar meu cabral. A partir deste momento, confio este carro, com todos os seus pertences, à distinção dos senhores passageiros.
– Deixa que eu vou! – disse um deles, garoto. E precipitou-se para fora, antes do motorista.
Via-se o garoto correndo para alcançar a senhora,(e) tocando-a pelo braço, os dois confabulando. Ela abria de novo a bolsa, tirava objetos, o pequeno ajudava. Os passageiros já se mostravam impacientes com a demora da expedição. O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros? O Serviço de Trânsito? Voltou o garoto, sem a nota. A senhora tinha apenas 987 cruzeiros, ele vira e jurava por ela.
– Tão vendo? Um prejuízo desses antes do almoço é de tirar a fome e a vontade de comer. – disse em tom frio, sem revolta, como simples remate. E tocou.
Perto do colégio, o garoto desceu, repetindo, encabulado: – Pode acreditar, ela não tinha mesmo o dinheiro não.
O motorista respondeu-lhe baixinho: – Eu sei. Já vi que está ali debaixo da caixa de fósforos. Mas se eu disser isso, esse povo me mata.(c)
(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. et al. Para gostar de ler, v.2.
São Paulo: Ática, 1966, p. 43-45)
Estabelece no contexto uma relação de condição o termo sublinhado no seguinte trecho:
- Vou ver se posso trocar.
- Nenhum cavalheiro [...] se moveu para salvar a situação.
- Mas se eu disser isso, esse povo me mata.
- como antes não se condoeram do vexame da senhora.
- Via-se o garoto correndo para alcançar a senhora.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Mas se eu disser isso, esse povo me mata.
"Se" introduz aqui uma condição: é a hipótese ondem depende a ocorrência do evento seguinte.
Na estrutura, a primeira oração (se eu disser isso) é a protasis, que apresenta a condição; a segunda (esse povo me mata) é a apodose, que indica a consequência caso a condição se realize.
O uso do presente do indicativo em mata mostra que o falante considera a consequência como provável ou certa se a condição for satisfeita.
Portanto, o termo sublinhado estabelece explicitamente uma relação condicional entre hipótese e resultado.
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