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Questão FC654663

− A senhora deixa suas filhas irem ao baile sozinhas com rapazes? Diga, a senhora deixa?

Sintaxe

FCC · 2022

Atenção: Leia o trecho da crônica “Retrato de velho”, de Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.

 

[1] Aos 85 anos, goza de saúde brônzea e quer trabalhar, mas trabalho que dê dinheiro, não essa milonga de mover os braços por desfastio. Deseja manter-se independente, estão ouvindo? O diabo é que não arranja serviço, e tem de viver em casa dos filhos − três, em três lugares distintos. No sítio de Mangaratiba, o genro entra em pânico à sua chegada: o velho está sempre bulindo nas plantas, dando ordens, contrariando instruções do dono.

 

A filha de Niterói, ciente das complicações, adverte-o:

 

− Por que o senhor não vai plantar em terreno ainda não cultivado? O sítio lá tem cinco alqueires, pois então escolha o mais distante e faça a sua horta nele.

 

− Planto onde eu quiser. Não faltava mais nada! Um homem como eu, já idoso…

 

[5] E cisma de ganhar dinheiro na cidade, podando árvore de rua.

 

− Arranjo uma tesoura grande e saio por aí caçando serviço. Estou novo ainda, sabe? E a prefeitura está carecendo de gente disposta.

 

Não arranja nada, e a prefeitura não lhe sente a falta. Vai para Vitória, em casa do terceiro filho, e pensa em adquirir um rebolo para amolar facas, com que atenda às necessidades do bairro. Ponderam-lhe:

 

− Eu, se fosse o senhor, fazia um orquidário. É tão lindo, distrai tanto. E depois, há espécies fabulosas, que rendem um colosso.

 

− É? Leva vinte anos para dar uma parasita que preste, não tenho lucro nenhum. Ora-e-essa!

 

[10] Tem horror a criança. Solenemente, faz queixa do bisneto, que lhe sumiu com a palha de cigarro, para vingar-se de seus ralhos intempestivos. Menino é bicho ruim, comenta. Ao chegar a avô, era terno e até meloso, mas a idade o torna coriáceo.

 

No trocar de roupa, atira ao chão as peças usadas. Alguém as recolhe à cesta, para lavar. Ele suspeita que pretendem subtraí- las, vai à cesta, vasculha, retira o que é seu, lava-o, passa-o. Mal, naturalmente.

 

− Da próxima vez que ele vier, diz a nora, terei de fechar o registro para evitar que desperdice água.

 

Espanta-se com os direitos concedidos às empregadas. Onde se viu? Isso aqui é o paraíso das criadas. A patroa acorda cedo, para despertar a cozinheira. Ele se levanta mais cedo ainda, e vai acordar a dona da casa:

 

− Acorda, sua mandriona, o dia já clareou!

 

[15] As empregadas reagem contra a tirania, despedem-se. E sem empregadas, sua presença ainda é mais terrível.

 

As netas adolescentes recebem amigos. Um deles, o pintor, foi acometido por um mal súbito e teve de deitar-se na cama de uma das garotas. Indignação: Que pouca-vergonha é essa? Esse bandalho aí, conspurcando o leito de uma virgem? Ou quem sabe se nem é mais virgem?

 

− Vovô, o senhor é um monstro!

 

E é um custo impedir que ele escaramuce o doente para fora de casa.

 

− A senhora deixa suas filhas irem ao baile sozinhas com rapazes? Diga, a senhora deixa?

 

[20] − Não vão sozinhas, vão com os rapazes.

 

− Pior ainda! Muito pior! A obrigação dos pais é acompanhar as filhas a tudo quanto é festa.

 

− Papai, a gente nem pode entrar lá com as meninas. É coisa de brotos

 

− É, não é? Pois me dá depressa o chapéu para eu ir lá dizer poucas e boas!

 

Não se sabe o que fazer dele. Que fim se pode dar a velhos implicantes? O jeito é guardá-lo por três meses e deixá-lo ir para outra casa, brigado. Mais três meses, e nova mudança nas mesmas condições. O velho é duro:

 

[25] − Vocês me deixam esbodegado, vocês são insuportáveis! − queixa-se ao sair. Mas volta.

 

− Descobri que paciência é uma forma de amor − diz-me uma das filhas, sorrindo.

 

(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. A bolsa e a vida. São Paulo: Companhia das Letras, 2012)

 

Em terei de fechar o registro para evitar que desperdice água, o termo sublinhado introduz uma oração que expressa ideia de

  1. consequência.
  2. finalidade.
  3. causa.
  4. condição.
  5. proporção.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Finalidade. A preposição para introduz aqui uma construção que indica o propósito da ação mencionada na oração principal.

Gramaticalmente trata-se de uma oração subordinada adverbial final reduzida de infinitivo, formada por para + infinitivo (no trecho, para evitar), que resume a razão pela qual se fecha o registro: impedir o desperdício.

Funciona como adjunto adverbial de finalidade porque depende da oração principal e modifica seu sentido, especificando a intenção da atitude expressa.

Pode ser reescrita sem perder sentido: terei de fechar o registro para que ele não desperdice água, o que evidencia claramente a ideia de propósito.

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