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Questão FC654677

Leia os Textos 01 e 02 para responder à questão. Texto 01 (Disponível em: https://site.sabesp.com.br/site/interna/) Texto 02 Inquilinos Ninguém é responsável pelo funcionamento do

Sintaxe

FCC · 2022

Leia os Textos 01 e 02 para responder à questão.

 

Texto 01

 

(Disponível em: https://site.sabesp.com.br/site/interna/)

 

Texto 02

 

Inquilinos

 

Ninguém é responsável pelo funcionamento do mundo. Nenhum de nós precisa acordar cedo para acender as caldeiras e checar se a Terra está girando em torno do seu próprio eixo na velocidade apropriada e em torno do Sol, de modo a garantir a correta sucessão das estações. Como num prédio bem administrado, os serviços básicos do planeta são providenciados sem que se enxergue o síndico − e sem taxa de administração. Imagine se coubesse à humanidade, com sua conhecida tendência ao desleixo e à improvisação, manter a Terra na sua órbita e nos seus horários, ou se − coroando o mais delirante dos sonhos liberais − sua gerência fosse entregue a uma empresa privada, com poderes para remanejar os ventos e suprimir correntes marítimas, encurtar ou alongar dias e noites, e até mudar de galáxia, conforme as conveniências de mercado, e ainda por cima sujeita a decisões catastróficas, fraudes e falência.

 

É verdade que, mesmo sob o atual regime impessoal, o mundo apresenta falhas na distribuição dos seus benefícios, favorecendo alguns andares do prédio metafórico e martirizando outros, tudo devido ao que só pode ser chamado de incompetência administrativa. Mas a responsabilidade não é nossa. A infraestrutura já estava pronta quando nós chegamos. Apesar de tentativas como a construção de grandes obras que afetam o clima e redistribuem as águas, há pouco que podemos fazer para alterar as regras do seu funcionamento.

 

Podemos, isto sim, é colaborar na manutenção da Terra. Todos os argumentos conservacionistas e ambientalistas teriam mais força se conseguissem nos convencer de que somos inquilinos no mundo. E que temos as mesmas obrigações de qualquer inquilino, inclusive a de prestar contas por cada arranhão no fim do contrato. A escatologia cristã deveria substituir o Salvador que virá pela segunda vez para nos julgar por um Proprietário que chegará para retomar seu imóvel. E o Juízo Final, por um cuidadoso inventário em que todos os estragos que fizemos no mundo seriam contabilizados e cobrados.

 

Cadê a floresta que estava aqui? − perguntaria o Proprietário. − Valia uma fortuna.

 

E:

 

− Este rio não está como eu deixei…

 

E, depois de uma contagem minuciosa:

 

− Estão faltando cento e dezessete espécies.

 

A Humanidade poderia tentar negociar. Apontar as benfeitorias − monumentos, parques, áreas férteis onde outrora existiam desertos − para compensar a devastação. O Proprietário não se impressionaria.

 

− Para que eu quero o Taj Mahal? Sete Quedas era muito mais bonita.

 

− E a Catedral de Chartres? Fomos nós que construímos. Aumentou o valor do terreno em…

 

− Fiquem com todas as suas catedrais, represas, cidades e shoppings, quero o mundo como eu o entreguei.

 

Não precisamos de uma mentalidade ecológica. Precisamos de uma mentalidade de locatários. E do terror da indenização.

 

(Adaptado de: VERISSIMO, Luis Fernando. O mundo é bárbaro e o que nós temos a ver com isso. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 19-22)

 

O pronome "o", em quero o mundo como eu o entreguei, exerce a mesma função sintática que o pronome sublinhado em:

  1. João ofereceu-lhe uma taça de vinho durante a festa.
  2. Por favor, não esqueça de me deixar o dinheiro!
  3. As pessoas a viram saindo da festa furtivamente.
  4. Maria me ofertou o livro.
  5. Pareceu-lhe que estava chorando.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

"quero o mundo como eu o entreguei" contém o pronome o, que é um pronome oblíquo átono. Essas formas (o, a, os, as) fazem a substituição de termos que funcionam como objeto direto do verbo. Aqui, o verbo entregar é transitivo direto: entrega-se algo. Logo, o retoma "o mundo" e exerce a função de objeto direto.

"As pessoas a viram saindo da festa furtivamente." também traz um pronome oblíquo átono (a) que completa o sentido do verbo viram, equivalente a ver alguém. Assim, a exerce a mesma função sintática de objeto direto que o pronome o no enunciado original, razão pela qual a alternativa é correta.

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