Questão FC654702
Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo. [Eternidade do guarda-chuva] Ontem choveu demais e eu precisava ir a três pontos diferentes da cidade. Quando o moço do jornal
Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)
FCC · 2025
Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo.
[Eternidade do guarda-chuva]
Ontem choveu demais e eu precisava ir a três pontos diferentes da cidade. Quando o moço do jornal veio apanhar a crônica que eu acabara de escrever, pedi-lhe que me comprasse um guarda-chuva que parecesse digno da classe média, e ele o fez com competência. Depois de cumprir meus afazeres voltei para casa, pendurei o guarda-chuva a um canto e me pus a contemplá-lo. Senti então uma certa simpatia por ele, meu velho rancor contra os guarda-chuvas cedeu lugar a um estranho carinho, e eu mesmo fiquei curioso para saber qual a origem desse carinho.
Pensando bem, ele talvez derive do fato de ser o guarda-chuva o objeto do mundo moderno mais intenso a mudanças. Sou apenas um quarentão, e praticamente nenhum objeto da minha infância existe mais em sua forma primitiva. De máquinas como telefone, automóvel etc., nem é bom falar. Mil pequenos objetos de uso mudaram de forma, de cor, de material; em alguns casos, é verdade, para melhor; mas mudaram.
O guarda-chuva tem resistido. Suas irmãs, as sombrinhas, já se entregaram aos piores desregramentos futuristas e tanto abusaram que até caíram de moda. Ele permaneceu austero, negro, com seu cabo e suas invariáveis varetas. De junco fino ou pinho vulgar, de algodão ou de seda animal, pobre ou rico, ele tem se mantido digno. Reparem que é um dos engenhos mais curiosos que o homem inventou; tem ao mesmo tempo algo de ridículo e de fúnebre, essa pequena barraca. Nada disso, entretanto, lhe tira o ar honrado. Entrou calmamente pela era atômica, e olha com ironia a arquitetura e os móveis chamados funcionais. Ele já era funcional muito antes de se usar esse adjetivo; e tanto que a fantasia, a inquietação e a ânsia de variedade do homem não conseguiram modificá-lo em coisa alguma.
Ali está ele, meio aberto, ainda molhado, choroso; descansa com uma espécie de humildade ou paciência humana; se tivesse liberdade de movimentos não duvido de que iria para cima do telhado quentar sol*, como fazem os urubus.
*quentar sol: forma popular para "esquentar ao sol"
(Adaptado de BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Reoord, 1978, p. 217-218)
É inteiramente regular a pontuação da frase:
- Pouca gente se dispõe de fato, a cultivar por um guarda-chuva, uma relação tão respeitosa como essa.
- Há, nos guarda-chuvas, uma variedade mínima de aspectos, que em nada afeta sua essência.
- Não vejo num guarda-chuva, o mesmo encantamento, que lhe dedicou o cronista.
- Não me surpreenderia, se o cronista mantivesse por outros objetos, essa mesma veneração.
- Não apenas honradez mas também humildade, atribui o cronista, ao guarda-chuva que lhe compraram.
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Gabarito
B
Comentário do professor
A frase está correta porque a pontuação isola adequadamente os elementos intercalares e a oração explicativa.
O verbo há é impessoal e a locução nos guarda-chuvas funciona como adjunto adverbial de lugar. Como esse adjunto foi colocado no meio da oração, sua separação por vírgulas é obrigatória para marcar a intercalação.
A vírgula antes de que em nada afeta sua essência também é correta: trata‑se de uma oração subordinada adjetiva explicativa, que acrescenta informação sobre variedade sem restringi‑la. O pronome relativo que retoma "variedade" e introduz a explicação; por isso a oração deve ser destacada por vírgula.
Regra prática: isole por vírgulas adjuntos intercalados e empregue vírgula antes de orações adjetivas explicativas introduzidas por pronome relativo.
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