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Questão FC654710

Leia a crônica “Cobrança”, de Moacyr Scliar, para responder a questão. “Cobrador usa intimidação como estratégia. Empresas de cobrança usam técnicas abusivas, como tornar pública a

Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)

FCC · 2022

Leia a crônica “Cobrança”, de Moacyr Scliar, para responder a questão.

“Cobrador usa intimidação como estratégia. Empresas de cobrança usam técnicas abusivas, como tornar pública a dívida.” (Cotidiano, 10.09.2001)

 

Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa, caminhando de um lado para outro. Carregava um cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes: “Aqui mora uma devedora inadimplente.”

 

− Você não pode fazer isso comigo − protestou ela.

 

− Claro que posso − replicou ele. − Você comprou, não pagou. Você é uma devedora inadimplente. E eu sou cobrador. Por diversas vezes tentei lhe cobrar, você não pagou.

 

− Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta crise...

 

− Já sei − ironizou ele. − Você vai me dizer que por causa daquele ataque lá em Nova York seus negócios ficaram prejudicados. Problema seu, ouviu? Problema seu. Meu problema é lhe cobrar. E é o que estou fazendo.

 

− Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta...

 

− Negativo. Já usei todas as formas discretas que podia. Falei com você, expliquei, avisei. Nada. Você fazia de conta que nada tinha a ver com o assunto. Minha paciência foi se esgotando, até que não me restou outro recurso: vou ficar aqui, carregando este cartaz, até você saldar sua dívida.

 

Neste momento começou a chuviscar.

 

− Você vai se molhar − advertiu ela. − Vai acabar ficando doente.

 

Ele riu, amargo:

 

− E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve.

 

− Posso lhe dar um guarda-chuva...

 

− Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um guarda-chuva.

 

Ela agora estava irritada:

 

− Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu marido, você mora aqui.

 

− Sou seu marido − retrucou ele − e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e você, devedora. Eu a avisei: não compre essa geladeira, eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. Mas não, você não me ouviu. E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. O que quer você que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até você cumprir sua obrigação.

 

Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa, carregando o seu cartaz.

 

(Adaptado de: SCLIAR, Moacyr. O imaginário cotidiano. São Paulo: Global, 2002)

 

Verifica-se o emprego de vírgula para assinalar a elipse (ou seja, a omissão) de um verbo em:

  1. A ele, isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa, carregando o seu cartaz. (18º parágrafo).
  2. − E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve. (12º parágrafo).
  3. − Você comprou, não pagou. (4º parágrafo).
  4. − Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu marido, você mora aqui. (16º parágrafo).
  5. − Sou seu marido − retrucou ele − e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e você, devedora. (17º parágrafo).
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

Sou seu marido retrucou ele e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e você, devedora.

A vírgula antes de devedora assinala a elipse do verbo copulativo é. Sintaticamente temos orações coordenadas; na última, o predicativo "devedora" está sem o verbo.

Reconstituindo: "e você é devedora." Nesse caso o verbo aparece e a vírgula deve ser suprimida. Como a forma verbal foi omitida, a vírgula funciona para indicar essa omissão e manter a fluidez do enunciado.

Portanto, a pontuação em questão marca justamente a ausência do copulativo, caracterizando a elipse verbal apontada pela alternativa correta.

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