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Questão FC654756

Menino Jesus de Praga?

Regência

FCC · 2022

Antigamente, se morria.

1907, digamos, aquilo sim

é que era morrer.

Morria gente todo dia,

e morria com muito prazer,

já que todo mundo sabia

que o Juízo, afinal, viria,

e todo mundo ia renascer.

Morria-se praticamente de tudo.

De doença, de parto, de tosse.

E ainda se morria de amor,

como se o amar morte fosse.

Pra morrer, bastava um susto,

um lenço no vento, um suspiro e pronto,

lá se ia nosso defunto(b)

para a terra dos pés juntos.(b)

Dia de anos, casamento, batizado,

morrer era um tipo de festa,

uma das coisas da vida,

como ser ou não ser convidado.

O escândalo era de praxe.

Mas os danos eram pequenos.

Descansou. Partiu. Deus o tenha.

Sempre alguém tinha uma frase

que deixava aquilo mais ou menos.

Tinha coisas que matavam na certa.

Pepino com leite, vento encanado,

praga de velha e amor mal curado.

Tinha coisas que tem que morrer,

 

tinha coisas que tem que matar.

A honra, a terra e o sangue

mandou muita gente praquele lugar.

Que mais podia um velho fazer,

nos idos de 1916,

a não ser pegar pneumonia,

deixar tudo para os filhos

e virar fotografia?

Ninguém vivia pra sempre.

Afinal, a vida é um upa.

Não deu pra ir mais além.

Mas ninguém tem culpa.

Quem mandou não ser devoto

de Santo Inácio de Acapulco,

Menino Jesus de Praga?

O diabo anda solto.

Aqui se faz, aqui se paga.

Almoçou e fez a barba,(c)

tomou banho e foi no vento.(d)

Não tem o que reclamar.

Agora, vamos ao testamento.(a)

Hoje, a morte está difícil.

Tem recursos, tem asilos, tem remédios.

Agora, a morte tem limites.

E, em caso de necessidade,

a ciência da eternidade(e)

inventou a criônica.(e)

Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

 

(LEMINSKI, Paulo. Toda poesia, 2013)

 

Considerando a regência verbal recomendada pela norma-padrão da língua portuguesa, verifica-se um desvio em:

  1. “Agora, vamos ao testamento.”
  2. “lá se ia nosso defunto / para a terra dos pés juntos.”
  3. “Almoçou e fez a barba,”
  4. “tomou banho e foi no vento.”
  5. “a ciência da eternidade / inventou a criônica.”
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Gabarito

D

Comentário do professor

“tomou banho e foi no vento.” apresenta desvios de regência verbal segundo a norma-padrão.

O verbo ir, quando indica deslocamento ou ingresso, rege preferencialmente a preposição 'a' (ou 'para'). O uso de 'em' com ir é frequente na fala, mas não é o padrão normativo.

No caso de vento, a forma culta e idiomática é ao vento, que funciona como locução adverbial (ex.: cabelos ao vento). Assim, o correto, para norma-padrão, seria foi ao vento.

Portanto, a construção com 'no vento' está graficamente e regencialmente inadequada neste contexto; o ajuste normativo é substituir por ao vento.

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