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Questão FC654780

Atenção: Para responder a questão abaixo, considere o texto a seguir. Passo o dia fazendo uma reportagem, não procuro nem pelo telefone nenhum amigo - e quando anoitece e chego ao

Concordância (Verbal e Nominal)

FCC · 2025

Atenção: Para responder a questão abaixo, considere o texto a seguir.

 

Passo o dia fazendo uma reportagem, não procuro nem pelo telefone nenhum amigo - e quando anoitece e chego ao apartamento sou um homem só nesta cidade de São Paulo. Ligo para dois conhecidos; nenhum está em casa. Perdi há tempos meu caderno de endereços; não encontro a lista de telefone. Tomo um banho, mudo a roupa e saio sozinho, sem programa, pelas calçadas formigantes deste começo de noite paulistana.

 

A ideia de entrar em um restaurante e jantar sozinho me deixa frio. Entro num desses cafés movimentadas da avenida São João, e como um desses pastéis feitos na hora, baratos e quentes com que em outros tempos enganei minha fome, nas noites frias, solitárias e sem dinheiro. Tomo também uma batida, depois peço um sanduíche e mais um pastel e um café; saio para a rua numa vaga noção de estar feliz, andando no meio dessa multidão encapotada que os cinemas de grandes luzes brilhantes vão engolindo em seus enormes ventres negros, onde esses homens e essas mulheres passam duas horas entretidos na mentira de outras vidas em outras terras. Vejo a multidão que sai de um desses cinemas; muitas dessas pessoas se comoveram com a fita, algumas choraram, há famílias enormes que chegam à calçada com um ar desorientado, meio sonâmbulas, e que de repente parecem aflitas de regressar à realidade da rua e de si mesmas, e temem se desagregar no selo da multidão apressada.

 

Desfilam por mim centenas, milhares de caras, e não conhecer ninguém me dá uma tristeza confortável, essa doçura melancólica da cidade estranha e grande. Entretanto aqui é São Paulo, onde tanto vivi. Entro em um bar ao acaso, mas também não vejo nenhum conhecido; e beber sozinho seria mais triste do que tudo. Agora não procuro mais ninguém; estou apenas vagando pelas ruas, integrado nesse fluir infindável de homens - um homem calado no meio deles, um desconhecido entre desconhecidos, apenas amparado por essa vaga solidariedade feita de alguma coisa de frágil e ao mesmo tempo de hostil, de prevenção e de identidade, que une os transeuntes da mesma rua. E reencontro assim, quase vinte anos depois, mais forte, mais populosa e imponente, a minha São Paulo da vez primeira, onde eu não conhecia ninguém e onde perambulei docemente uma noite inteira, aprendendo a rua com meus olhos e meus pés, gozando devagar o encanto da cidade que escolhera para viver exatamente porque ali não conhecia ninguém.

 

Mas ouço meu nome; é um amigo que me chama de dentro de um automóvel. Subo ao seu carro, vamos encontrar outros amigos em um bar. Na calçada ficou o fantasma solitário, mas livre e lírico, do rapaz aventureiro de antigamente.

 

(Adaptado de: BRAGA. Rubem. "o Aventureiro". Rio de Janeiro: Correio da Manha., 22/711952. Disponível em: https://rubl.caurulbarbosa.gov.br)

 

A flexão do verbo destacado deve-se ao elemento sublinhado em:

  1. Na calçada ficou o fantasma solitário, mas livre e lírico, do rapaz aventureiro de antigamente. (último parágrafo)
  2. multidão encapotada que os cinemas de grandes luzes brilhantes vão engolindo em seus enormes ventres negros ... (2º parágrafo)
  3. pastéis feitos na hora, baratos e quentes com que em outros tempos enganei minha fome ... (2º parágrafo)
  4. A ideia de entrar em um restaurante e jantar sozinho me deixa frio. (2º parágrafo)
  5. e beber sozinho seria mais triste do que tudo. (3º parágrafo)
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Gabarito

D

Comentário do professor

Para encontrar o sujeito, pergunte ao verbo: o que deixa frio? A resposta é “a ideia de entrar em um restaurante e jantar sozinho”. Esse sintagma nominal é o sujeito da oração; seu núcleo é o substantivo ideia, palavra com a qual o verbo deve concordar.

Como o núcleo está no singular, o verbo aparece em 3.ª pessoa do singular: deixa. A locução “de entrar em um restaurante e jantar sozinho” funciona como complemento do substantivo, não altera a concordância verbal.

Se o núcleo fosse plural, o verbo mudaria para o plural: As ideias de entrar... me deixam frio. Assim fica claro que a flexão verbal obedece ao núcleo do sujeito.

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