Questão FC654783
Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo. [Eternidade do guarda-chuva] Ontem choveu demais e eu precisava ir a três pontos diferentes da cidade. Quando o moço do jornal
Concordância (Verbal e Nominal)
FCC · 2025
Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo.
[Eternidade do guarda-chuva]
Ontem choveu demais e eu precisava ir a três pontos diferentes da cidade. Quando o moço do jornal veio apanhar a crônica que eu acabara de escrever, pedi-lhe que me comprasse um guarda-chuva que parecesse digno da classe média, e ele o fez com competência. Depois de cumprir meus afazeres voltei para casa, pendurei o guarda-chuva a um canto e me pus a contemplá-lo. Senti então uma certa simpatia por ele, meu velho rancor contra os guarda-chuvas cedeu lugar a um estranho carinho, e eu mesmo fiquei curioso para saber qual a origem desse carinho.
Pensando bem, ele talvez derive do fato de ser o guarda-chuva o objeto do mundo moderno mais intenso a mudanças. Sou apenas um quarentão, e praticamente nenhum objeto da minha infância existe mais em sua forma primitiva. De máquinas como telefone, automóvel etc., nem é bom falar. Mil pequenos objetos de uso mudaram de forma, de cor, de material; em alguns casos, é verdade, para melhor; mas mudaram.
O guarda-chuva tem resistido. Suas irmãs, as sombrinhas, já se entregaram aos piores desregramentos futuristas e tanto abusaram que até caíram de moda. Ele permaneceu austero, negro, com seu cabo e suas invariáveis varetas. De junco fino ou pinho vulgar, de algodão ou de seda animal, pobre ou rico, ele tem se mantido digno. Reparem que é um dos engenhos mais curiosos que o homem inventou; tem ao mesmo tempo algo de ridículo e de fúnebre, essa pequena barraca. Nada disso, entretanto, lhe tira o ar honrado. Entrou calmamente pela era atômica, e olha com ironia a arquitetura e os móveis chamados funcionais. Ele já era funcional muito antes de se usar esse adjetivo; e tanto que a fantasia, a inquietação e a ânsia de variedade do homem não conseguiram modificá-lo em coisa alguma.
Ali está ele, meio aberto, ainda molhado, choroso; descansa com uma espécie de humildade ou paciência humana; se tivesse liberdade de movimentos não duvido de que iria para cima do telhado quentar sol*, como fazem os urubus.
*quentar sol: forma popular para "esquentar ao sol"
(Adaptado de BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Reoord, 1978, p. 217-218)
As normas de concordância verbal encontram-se plenamente respeitadas na frase:
- O que costumam faltar em certos objetos funcionais é a conservação de suas características básicas.
- Não se podem atribuir aos guarda-chuvas nenhum dos prejuízos de uma obsolescência programada.
- Ainda que se constate as variações de suas formas, conservam-se nos guarda-chuvas um desenho básico.
- Não nos cabem nutrir por guarda-chuvas qualquer rejeição por seu aspecto fúnebre e desgracioso.
- Deve-se aos guarda-chuvas a lição de uma permanência histórica que a poucas coisas é dado cumprir.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
Na frase, a concordância verbal está correta porque os verbos concordam com seus respectivos sujeitos. Em Deve-se aos guarda-chuvas a lição de uma permanência histórica, o sujeito é a lição de uma permanência histórica (núcleo: lição) e, portanto, o verbo dever aparece no singular deve. O elemento aos guarda-chuvas é complemento oblíquo e não interfere na flexão verbal.
Na oração relativa que a poucas coisas é dado cumprir, o pronome que retoma uma permanência histórica e funciona como objeto direto de cumprir. A expressão que cumprir funciona como sujeito da locução impessoal é dado (subordinada substantiva subjetiva), por isso o verbo ser aparece no singular é.
Assim, ambos os verbos estão corretamente flexionados em relação aos seus sujeitos, justificando a correção da frase.
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