Questão FC654835
Discurso de paraninfo (excerto) Nas faculdades jovens, como a nossa, as distâncias entre professores e alunos são, felizmente, pequenas, porque todos têm o sentimento vivo de parti
Vozes (Voz Passiva e Voz Ativa)
FCC · 2025
Discurso de paraninfo (excerto)
Nas faculdades jovens, como a nossa, as distâncias entre professores e alunos são, felizmente, pequenas, porque todos têm o sentimento vivo de participar, lado a lado, na construção de alguma coisa que não adquiriu contornos definitivos: a tradição ainda não ergueu, em nossa casa, as barreiras segregadoras do status, as pequenas querelas de precedência e as grandes vaidades acadêmicas.
No conjunto das vocações universitárias, pertence-vos a do magistério secundário. Ora, se normalmente a função de ensinar é penosa e cheia de responsabilidade, é que não será em nosso tempo, quando os velhos ideais pedagógicos não mais funcionam. O comportamento humano está sempre em defasagem com os padrões ideais.
Um problema que logo se apresenta é a maneira por que devemos proceder a fim de transformar em valor humano o que nos foi ensinado e o que ensinamos. Meus caros colegas, convém lembrar que a palavra pedante significa etimologicamente professor, aquele que ensina. Deve ter havido, portanto, alguma transformação no ofício — tão nobre em si — para que todos nós, professores, chegássemos a repelir violentamente essa palavra quando alguém se lembra de nos caracterizar por meio dela.
Pedante mudou-se de substantivo em adjetivo graças à anomalia de atribuir ao estudo e à palavra uma finalidade em si mesmo. No tempo de Montaigne — que tem sobre a matéria um ensaio admirável — o pedantismo consistia em valorizar demasiadamente o exercício da inteligência, em detrimento da arte de viver. Hoje, pedantismo é a afetação desnecessária da palavra e da ideia. De qualquer maneira, sempre que a vossa atividade intelectual estiver ancorada apenas nos vossos livros e, sobretudo, na rotina da vida universitária, estareis em perigo de cair num desses tipos de pedantismo.
Neste tempo de dispersão, vulgarização e pressa, procuremos forjar em nós e nos nossos discípulos a concentração do espírito, a preservação dos valores pessoais e a longa, frutuosa paciência. “A paciência é a mais heroica das virtudes” — escreveu Leopardi — “precisamente porque não tem aparência alguma de heroísmo.”
(Adaptado de: CANDIDO, Antonio. Textos de intervenção. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2002, p. 311-313, passim)
Um segmento do texto foi transposto da voz ativa para a passiva em:
- As distâncias entre professores e alunos têm sido, felizmente, pequenas (1º parágrafo).
- A vocação do magistério secundário tem pertencido a vós (2º parágrafo).
- Alguma coisa que contornos definitivos não vieram a adquirir (1º parágrafo).
- Barreiras segregadoras do status ainda não foram erguidas (1º parágrafo).
- Essa palavra teria chegado a nos repelir violentamente (3º parágrafo).
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Gabarito
D
Comentário do professor
Barreiras segregadoras do status ainda não foram erguidas apresenta a voz passiva analítica. Identifica-se pela combinação do verbo ser (aqui foram) com o particípio do verbo principal (erguidas), formando uma estrutura em que o sujeito recebe a ação.
O sujeito paciente é Barreiras segregadoras do status. O agente da passiva (quem ergueu) está explícito, mas pode ser subentendido ou omitido, o que é comum na passiva analítica.
Na voz ativa, a oração corresponderia a: Não ergueram barreiras segregadoras do status. Observe que, na ativa, o verbo passa a ser transitivo e o agente fica indeterminado quando não é mencionado.
Portanto, a forma foram erguidas confirma a transformação do enunciado da voz ativa para a passiva analítica, com sujeito paciente e agente elíptico.
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