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Questão FC654873

Atenção: Para responder à questão, considere o trecho de um ensaio do filósofo Michel de Montaigne. A maneira mais comum de amolecer o coração dos que nos ofendem, quando, vingança

Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)

FCC · 2026

Atenção: Para responder à questão, considere o trecho de um ensaio do filósofo Michel de Montaigne.

 

A maneira mais comum de amolecer o coração dos que nos ofendem, quando, vingança em mãos, eles nos têm à sua mercê, é comovê-los pela nossa submissão, inspirando-lhes comiseração e piedade. Entretanto, reparem que a bravura, a tenacidade e a resolução, meios inteiramente opostos, alcançam às vezes idêntico resultado.

 

Eduardo, príncipe de Gales, tendo-se apoderado pela força de Limoges, ordenara o massacre dos habitantes que o haviam gravemente ofendido.(e) Caminhava ele pela cidade sem que os gritos dos homens, mulheres e crianças assim condenados à morte lhe amolecessem a alma, quando deparou com três fidalgos franceses que, sozinhos, e com incrível ousadia, enfrentavam o exército vitorioso. Essa coragem inspirou-lhe tal consideração e respeito, que subitamente se lhe acalmou a cólera; e o perdão que de imediato concedeu aos temerários, ele o estendeu aos demais habitantes da cidade.

 

Skanderberg, príncipe do Épiro, perseguia um de seus soldados com a intenção de matá-lo.(b) Este, depois de ter tentado em vão acalmá-lo com protestos de toda espécie e as mais humildes súplicas, resolveu, em desespero de causa, esperá-lo de espada na mão. O gesto resoluto freou instantaneamente a exasperação do senhor, o qual, ao ver tão honrosa atitude, outorgou perdão ao perseguido.

 

O imperador Conrado III, assediando o duque da Baviera, não consentira em deixar sair da cidade senão as mulheres dos fidalgos que ali se encontravam. Comprometera-se a respeitar-lhes a honra mas à condição de saírem a pé e levando apenas, com elas, o que pudessem carregar.(c) Atentando unicamente para os ditames do coração, lembraram-se as mulheres de levar às costas os maridos, os filhos e o próprio duque. Impressionou-se o imperador a tal ponto com essa prova de coragem que chegou a chorar de emoção.(d) O ódio mortal que votara ao duque,(a) cuja desgraça desejava, tornou-se menos violento e a partir desse momento ele o tratou, e aos seus, com humanidade.(a)

 

Ambos os meios dariam resultado comigo, pois tenho grande propensão para a misericórdia e a benevolência. Entretanto, acho que cederia mais facilmente pela compaixão do que pela admiração, embora a piedade seja considerada paixão condenável pelos estoicos, os quais admitem que socorramos os aflitos mas não que nos enterneçamos ante o sofrimento ou dele nos compadeçamos. Os exemplos que precedem parecem-me mais apropriados. Mostram-nos a alma em luta com estes dois sentimentos contrários: resistir a um sem dobrar e ceder ao outro.

 

(Adaptado de: Montaigne, Michel de. Ensaios. São Paulo: Editora 34, 2016, p.43-44)

 

Retoma um termo mencionado anteriormente no texto a palavra sublinhada em:

  1. O ódio mortal que votara ao duque [...] tornou-se menos violento e a partir desse momento ele o tratou, e aos seus, com humanidade.
  2. Skanderberg, príncipe do Épiro, perseguia um de seus soldados com a intenção de matá-lo.
  3. Comprometera-se a respeitar-lhes a honra mas à condição de saírem a pé e levando apenas [...] o que pudessem carregar.
  4. Impressionou-se o imperador a tal ponto com essa prova de coragem que chegou a chorar de emoção.
  5. Eduardo, príncipe de Gales, [...] ordenara o massacre dos habitantes que o haviam gravemente ofendido.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

Eduardo é o antecedente retomado pelo pronome oblíquo átono o. No trecho, a oração relativa "que o haviam gravemente ofendido" tem "que" como sujeito (os habitantes) e "o" como objeto direto, ou seja, os habitantes haviam ofendido Eduardo.

A escolha do pronome no singular e no masculino confirma a referência a Eduardo, príncipe de Gales, mencionado pouco antes. Trata‑se de um caso de anáfora: o pronome substitui e retoma um termo já citado no discurso, garantindo coesão textual e concordância de gênero e número.

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