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Questão FC654876

Atenção: Para responder a questão abaixo, considere o texto a seguir. Passo o dia fazendo uma reportagem, não procuro nem pelo telefone nenhum amigo - e quando anoitece e chego ao

Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)

FCC · 2025

Atenção: Para responder a questão abaixo, considere o texto a seguir.

 

Passo o dia fazendo uma reportagem, não procuro nem pelo telefone nenhum amigo - e quando anoitece e chego ao apartamento sou um homem só nesta cidade de São Paulo. Ligo para dois conhecidos; nenhum está em casa. Perdi há tempos meu caderno de endereços; não encontro a lista de telefone. Tomo um banho, mudo a roupa e saio sozinho, sem programa, pelas calçadas formigantes deste começo de noite paulistana.

 

A ideia de entrar em um restaurante e jantar sozinho me deixa frio. Entro num desses cafés movimentadas da avenida São João, e como um desses pastéis feitos na hora, baratos e quentes com que em outros tempos enganei minha fome, nas noites frias, solitárias e sem dinheiro. Tomo também uma batida, depois peço um sanduíche e mais um pastel e um café; saio para a rua numa vaga noção de estar feliz, andando no meio dessa multidão encapotada que os cinemas de grandes luzes brilhantes vão engolindo em seus enormes ventres negros, onde esses homens e essas mulheres passam duas horas entretidos na mentira de outras vidas em outras terras. Vejo a multidão que sai de um desses cinemas; muitas dessas pessoas se comoveram com a fita, algumas choraram, há famílias enormes que chegam à calçada com um ar desorientado, meio sonâmbulas, e que de repente parecem aflitas de regressar à realidade da rua e de si mesmas, e temem se desagregar no selo da multidão apressada.

 

Desfilam por mim centenas, milhares de caras, e não conhecer ninguém me dá uma tristeza confortável, essa doçura melancólica da cidade estranha e grande. Entretanto aqui é São Paulo, onde tanto vivi. Entro em um bar ao acaso, mas também não vejo nenhum conhecido; e beber sozinho seria mais triste do que tudo. Agora não procuro mais ninguém; estou apenas vagando pelas ruas, integrado nesse fluir infindável de homens - um homem calado no meio deles, um desconhecido entre desconhecidos, apenas amparado por essa vaga solidariedade feita de alguma coisa de frágil e ao mesmo tempo de hostil, de prevenção e de identidade, que une os transeuntes da mesma rua. E reencontro assim, quase vinte anos depois, mais forte, mais populosa e imponente, a minha São Paulo da vez primeira, onde eu não conhecia ninguém e onde perambulei docemente uma noite inteira, aprendendo a rua com meus olhos e meus pés, gozando devagar o encanto da cidade que escolhera para viver exatamente porque ali não conhecia ninguém.

 

Mas ouço meu nome; é um amigo que me chama de dentro de um automóvel. Subo ao seu carro, vamos encontrar outros amigos em um bar. Na calçada ficou o fantasma solitário, mas livre e lírico, do rapaz aventureiro de antigamente.

 

(Adaptado de: BRAGA. Rubem. "o Aventureiro". Rio de Janeiro: Correio da Manha., 22/711952. Disponível em: https://rubl.caurulbarbosa.gov.br)

 

Considere o uso de pronomes nos seguintes trechos do terceiro parágrafo do texto: 

 

essa doçura melancólica da cidade estranha e grande. 

que une os transeuntes da mesma rua. 

onde perambulei docemente

 

Os termos sublinhados referem-se, respectivamente, a

  1. cidade - vaga solidariedade - rua
  2. tristeza confortável - vaga solidariedade - São Paulo
  3. não conhecer ninguém - Identidade - São Paulo
  4. não conhecer ninguém - vaga solidariedade - rua
  5. tristeza confortável - Identidade - rua
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Gabarito

B

Comentário do professor

Os pronomes destacados estabelecem relações anafóricas, ou seja, retomam ideias já apresentadas no texto.

O demonstrativo essa refere-se diretamente à expressão tristeza confortável, funcionando como aposto explicativo: o segmento "essa doçura melancólica..." amplia e caracteriza essa sensação já mencionada.

O relativo que retoma a expressão inteira vaga solidariedade, cujo núcleo é o substantivo solidariedade. Todo o trecho seguinte explica a natureza dessa solidariedade, com os elementos que atuam como adjuntos adnominais.

O advérbio onde exige referente de lugar e recupera São Paulo, local descrito logo antes. Assim, os pronomes mantêm a coesão textual ao remeterem a elementos prévios do enunciado.

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