Questão FC654881
Interativo demais Antigamente, os escritores eram admirados apenas pelo que publícavam em livros e revistas. Quando algum leitor gostava muito do que havia lido e queria compartilh
Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
FCC · 2025
Interativo demais
Antigamente, os escritores eram admirados apenas pelo que publícavam em livros e revistas. Quando algum leitor gostava muito do que havia lido e queria compartilhar com alguém, dava o livro de presente ou emprestava o seu. O conteúdo mantinha-se preservado, assim como seu autor. Ninguém divulgava um texto de Somerset Maugham como sendo de Virgínia Woolf, ninguém infiltrava parágrafos do Rubem Braga num texto do Sartre, ninguém criava novos finais para os poemas de Cecília Meireles. O escritor e sua obra eram respeitados, e os leitores podiam confiar no que estavam consumindo.
Além disso, artistas de cinema, músicos e esportistas eram mitos a cuja intimidade não se tinha acesso. Marilyn Monroe, Frank Sinatra e Ayrton Senna entregavam ao públlco o que prometiam - sua arte - e o resto era especulação. Mais tarde pipocavam biografias, saciando a curiosidade do público, mas o legado desses ícones se manteve para sempre incorruptível: eram os donos legítimos de sua imagem, de sua voz e de suas palavras.
Era uma época em que aceitávamos pacificamente nossa condição de plateia, até que se inventou o conceito de interatividade e as ferramentas para exercê-la. Por um lado, a sociedade se democratizou, todos passaram a ser ouvidos, diminuiu a distância entre patrões e empregados, produtores e consumidores: as relações ficaram mais funcionais; por outro, o uso dessas ferramentas acabou involuindo para a maledicência e a promiscuidade virtual. Hoje ninguém consegue mais ter controle sobre sua imagem ou seu trabalho. Um ator de televisão diz "oi" para uma amiga na rua e na manhã seguinte correm notícias de que estão de casamento marcado. Uma cantora cancela um show porque está afônica e logo surge o boato de que tentou suicídio. Um escritor publica um texto no jornal e três segundos depois o mesmo texto está na internet, atribuído a Toulouse-Lautrec, que nem escritor foi.
(Adaptado de Martha Medeiros. A graça da coisa. L &PM Editores. 2013)
Do ponto de vista da coesão textual, a construção Por um lado [ ... ] por outro (3º parágrafo) tem como função:
- introduzir uma sequência de ações contrárias à modernização.
- Contrapor o passado idealizado à presente degradação social.
- Estabelecer oposição entre os benefícios e os prejuízos da interatividade.
- Retomar uma enumeração iniciada no parágrafo anterior.
- Enfatizar a importância de ouvir todas as vozes da sociedade.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
"Por um lado... por outro" funciona aqui como um conector que estabelece oposição entre aspectos favoráveis e desfavoráveis da interatividade. Trata-se de um recurso de coesão sequencial frástica que orienta a progressão argumentativa do parágrafo.
No primeiro termo o autor enumera os benefícios: democratização, maior participação e relações mais funcionais. No segundo termo são apontados os prejuízos: maledicência, promiscuidade virtual e perda de controle sobre imagem e obras.
Ao marcar esse contraste, o enunciador demonstra uma visão ambivalente da modernidade tecnológica, ajudando o leitor a compreender que a interatividade traz consequências positivas e negativas simultaneamente.
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