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Questão FC654901

II. – Tens o bilhete contigo?

Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)

FCC · 2022

Não me correu tranquilo o S. João de 185...

 

Duas semanas antes do dia em que a Igreja celebra o evangelista, recebi pelo correio o seguinte bilhete, sem assinatura e de letra desconhecida:

 

“O Dr. *** é convidado a ir à vila de... tomar conta de um processo. O objeto é digno do talento e das habilitações do advogado. Despesas e honorários ser-lhe-ão satisfeitos antecipadamente, mal puser pé no estribo. O réu está na cadeia da mesma vila e chama-se Julião. Note que o Dr. é convidado a ir defender o réu.”

 

Li e reli este bilhete; voltei-o em todos os sentidos; comparei a letra com todas as letras dos meus amigos e conhecidos... Nada pude descobrir.

 

Entretanto, picava-me a curiosidade. Luzia-me um romance através daquele misterioso e anônimo bilhete. Tomei uma resolução definitiva. Ultimei uns negócios, dei de mão outros, e oito dias depois de receber o bilhete tinha à porta um cavalo e um camarada para seguir viagem. No momento em que me dispunha a sair, entrou-me em casa um sujeito desconhecido, e entregou-me um rolo de papel contendo uma avultada soma, importância aproximada das despesas e dos honorários. Recusei apesar das instâncias, montei a cavalo e parti.

 

Só depois de ter feito algumas léguas é que me lembrei de que justamente na vila a que eu ia morava um amigo meu, antigo companheiro da academia.

 

Poucos dias depois apeava eu à porta do referido amigo. Depois de entregar o cavalo aos cuidados do camarada, entrei para abraçar o meu antigo companheiro de estudos,(I) que me recebeu alvoroçado e admirado.

 

− A que vens, meu amigo? A que vens? perguntava-me ele.

 

− Vais sabê-lo. Creio que há um romance para deslindar. Há quinze dias recebi no meu escritório, na corte, um bilhete anônimo em que se me convidava com instância a vir a esta vila para tomar conta de uma defesa. Não pude conhecer a letra; era desigual e trêmula, como escrita por mão cansada...

 

− Tens o bilhete contigo?(II)

 

− Tenho.

 

Tirei do bolso o misterioso bilhete e entreguei-o aberto ao meu amigo. Ele, depois de lê-lo, disse:

 

− É a letra de Pai de todos.

 

− Quem é Pai de todos?

 

− É um fazendeiro destas paragens, o velho Pio. O povo dá-lhe o nome de Pai de todos, porque o velho Pio o é na verdade.(III)

 

− Bem dizia eu que há romance no fundo!... Que faz esse velho para que lhe deem semelhante título?

 

− Pouca coisa. Pio é, por assim dizer, a justiça e a caridade fundidas em uma só pessoa. Só as grandes causas vão ter às autoridades judiciárias, policiais ou municipais; mas tudo o que não sai de certa ordem é decidido na fazenda de Pio, cuja sentença todos acatam e cumprem. Seja ela contra Pedro ou contra Paulo, Paulo e Pedro submetem-se, como se fora uma decisão divina.

 

Quando dois contendores saem da fazenda de Pio, saem amigos. É caso de consciência aderir ao julgamento de Pai de todos.

 

O meu amigo continuou a desfiar as virtudes do fazendeiro. Meu espírito apreendia-se cada vez mais de que eu ia entrar em um romance. Finalmente o meu amigo dispunha-se a contar-me a história do crime em cujo conhecimento devia eu entrar daí a poucas horas. Detive-o.

 

− Não, disse-lhe, deixa-me saber de tudo por boca do próprio réu. Depois compararei com o que me contarás.

 

− É melhor. Julião é inocente...

 

(Adaptado de: ASSIS, Machado de. Obra Completa, v. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994)

 

Considere os seguintes trechos:

 

I. Depois de entregar o cavalo aos cuidados do camarada, entrei para abraçar o meu antigo companheiro de estudos.

 

II. – Tens o bilhete contigo?

 

III. O povo dá-lhe o nome de Pai de todos, porque o velho Pio o é na verdade.

 

Retoma uma expressão mencionada anteriormente no texto o termo sublinhado APENAS em

  1. III.
  2. I.
  3. II.
  4. I e II.
  5. II e III.
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Gabarito

A

Comentário do professor

III está correta porque o elemento o funciona como pronome anafórico, isto é, retoma uma ideia mencionada antes: Pai de todos. Não é artigo definido aqui.

Na frase o povo dá‑lhe o nome de Pai de todos, porque o velho Pio o é na verdade, o o equivale a isso ou tal, substituindo o predicativo Pai de todos.

Podemos parafrasear: o velho Pio é isso, onde isso refere‑se a Pai de todos. Assim, há coesão referencial entre o pronome e a expressão previamente citada.

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