Questão FC654918
Não pretendia voltar a escrever sobre como a língua vai mudando, por não querer ser chamado de velho caturra, mas é difícil segurar e aí não me contenho. Esta semana (ou, segundo a
Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
FCC · 2022
Não pretendia voltar a escrever sobre como a língua vai mudando, por não querer ser chamado de velho caturra, mas é difícil segurar e aí não me contenho. Esta semana (ou, segundo a atual usança, “nesta semana”), por exemplo, cheguei à conclusão de que estamos caminhando para a adoção de uma nova regra em relação às orações com o sujeito na terceira pessoa, tanto do singular quanto do plural. Assisti a muitos noticiários de televisão nos últimos dias, ouvi muitas entrevistas com todo tipo de gente e a conclusão dispensa maiores pesquisas. Dentro em breve vai ser errado dizer, por exemplo, “o avião teve uma pane elétrica”. Imagino que, a continuar a tendência, as crianças nascidas hoje não compreenderão uma frase assim, porque jamais a ouvirão. Ouvirão “o avião, ele teve uma pane elétrica”. E lerão numa gramática da norma culta que, na terceira pessoa, o sujeito precisa ser confirmado pelo pronome para o enunciado ficar claro.
(RIBEIRO, João Ubaldo. “Vergonha da mesóclise”. O Estado de São Paulo, 6/6/2009)
O trecho acima de João Ubaldo Ribeiro lida com humor diante da transformação da língua e da diferença entre escrita e oralidade. Na frase indicada, a presença do pronome “ele”
- assinala uma impropriedade do uso da linguagem oral em língua portuguesa.
- altera substancialmente o sentido do enunciado.
- é um elemento indispensável para a compreensão do enunciado.
- refere-se a algum elemento não presente no enunciado.
- tem como função assegurar uma relação coesiva redundante típica da linguagem oral.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
A presença do pronome “ele” funciona para assegurar uma relação de coesão redundante típica da oralidade.
Ao retomar “o avião”, o pronome faz uma retomada anafórica: repete a referência já mencionada e cria redundância que reforça a ligação entre as partes do enunciado.
Essa repetição não é necessária para a compreensão estrita do conteúdo, mas atua pragmaticamente para dar ênfase, confirmar o tópico e facilitar o processamento auditivo pelo ouvinte, sobretudo quando há pausa ou entonação marcada, como em “o avião, ele teve uma pane elétrica”.
Portanto, trata-se de um recurso coesivo recorrencial e típico da fala espontânea, que privilegia clareza e interação imediata.
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