Questão FC654935
Considere a crônica "No ônibus", do escritor Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão. 1. A senhora subiu, Deus sabe como, em companhia de dois garotos. Cada garoto com
Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre)
FCC · 2026
Considere a crônica "No ônibus", do escritor Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.
1. A senhora subiu, Deus sabe como, em companhia de dois garotos. Cada garoto com sua merendeira e sua pasta de livros e cadernos indispensáveis para a aquisição dos preliminares da sabedoria. No ônibus não cabia mais ninguém. A bem dizer, não cabia nem o pessoal que se espremia lá dentro em estado de sardinha. Na massa compacta de gente, ou de seções de gente que a vista alcançava, percebi aquelas mãozinhas tentando segurar as pastas atochadas.(a)
2. - Deixa que eu carrego - falei na direção de um dos braços a meu alcance, executando um movimento complicado, para enxergar os rostos dos garotos.(c) O menor olhou-me com surpresa e hesitação, porém o mais velho estendeu o braço, e o primeiro, depois de uma cotovelada ministrada pelo segundo, imitou-o. Fiquei de posse de duas bojudas pastas escolares, que acomodei da melhor maneira possível sobre os joelhos. Conheço perfeitamente a técnica de carregar embrulhos dos outros. Deve-se colocá-los de tal modo que fiquem seguros sem que seja necessário pôr a mão em cima deles. São coisas sagradas.
3. A voz da senhora saiu daquele bolo humano:
4. - Agradece ao moço, Serginho. Agradece, Raul.
5. Raul (o mais crescido) obedeceu, mas Serginho manteve-se reservado. Mal se passaram alguns minutos, senti que a pasta de cima escorregava mansamente do meu colo. Muito de leve, a mão esquerda de Serginho, escondida sob um lenço, puxava-a para fora. Compreendi que ele prezava acima de tudo a sua pasta, e deixei que a tirasse. A mãe ordenou:
6. - Serginho, deixe a pasta com o moço!
7. Teve de levantar a voz, para torná-la enérgica. Passageiros em redor começaram a sorrir. Tive de sorrir também. Muito a contragosto, Serginho voltou a confiar-me sua querida pasta. Um estranho mereceria carregá-la?(b) E se fugisse com ela? Como bem podem imaginar, Serginho suspeitava de minha honorabilidade, e os circunstantes se deliciavam com a suspeita.
8. Mais alguns quarteirões, Serginho repete a manobra. Dessa vez, é radical. Toma sua pasta e a de Raul. Raul protesta:
9. - Deixa com ele, seu burro. Não vê que eu não posso segurar nada?(d)
10. A mãe, em apoio de Raul, exprobra o procedimento de Serginho. Este capitula, mas em termos. Só me restitui a pasta do irmão. A sua não correrá o risco. Coloca-a sobre o peito, sob as mãos cruzadas, como levaria o Santo Graal.
11. - Este menino é impossível. Desculpe, cavalheiro.
12. Não vejo o rosto da senhora, mas sua voz é doce, e compensa-me da desconfiança do Serginho. Sorrio para este, enquanto retribuo: "Oh, minha senhora, por favor! Até que o seu filhinho é engraçado."(e)
13. Engraçado? Serginho faz-me uma careta e ferra-me um beliscão. A assistência ri. A mãe ferra outro em Serginho, que dispara a chorar. Bonito. É no que dá carregar embrulho dos outros.
(ANDRADE, Carlos Drummond de, 70 historinhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 105-107. Adaptado)
No chamado discurso indireto livre, a voz de um personagem mescla-se intimamente à voz do cronista, a exemplo do que ocorre no seguinte trecho:
- Na massa compacta de gente, ou de seções de gente que a vista alcançava, percebi aquelas mãozinhas tentando segurar as pastas atochadas.
- Muito a contragosto, Serginho voltou a confiar-me sua querida pasta. Um estranho mereceria carregá-la? E se fugisse com ela?
- - Deixa que eu carrego - falei na direção de um dos braços a meu alcance, executando um movimento complicado, para enxergar os rostos dos garotos.
- Raul protesta: - Deixa com ele, seu burro. Não vê que eu não posso segurar nada?
- Sorrio para este, enquanto retribuo: "Oh, minha senhora, por favor! Até que o seu filhinho é engraçado."
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Gabarito
B
Comentário do professor
Discurso indireto livre é a técnica em que a voz do narrador e a voz do personagem se fundem, apresentando pensamentos ou falas íntimas sem marcas explícitas de citação.
Muito a contragosto, Serginho voltou a confiar-me sua querida pasta. Um estranho mereceria carregá-la? E se fugisse com ela?
Neste trecho, as perguntas internas expressam a suspeita e o raciocínio de Serginho, mas aparecem integradas ao enunciado do cronista. Não há verbos de elocução, travessões ou aspas que indiquem discurso direto, nem mudança degradativa típica do discurso indireto livre em terceira pessoa.
Por isso, o trecho traduz o ponto de vista íntimo do personagem filtrado pela narração, caracterizando claramente o discurso indireto livre.
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