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Questão FC654938

Ela desceu, o carro já havia começado a chispar, como é destino dos lotações, quando de repente o motorista freou e botou as mãos à cabeça: – Os senhores acreditam que em vez de gu

Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre)

FCC · 2026

Atenção: Considere a crônica de Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.

 

Quando a senhora foi descer do lotação, o motorista coçou a cabeça: – Mil cruzeiros! Como é que a senhora quer que eu troque mil cruzeiros?

 

– Desculpe, me esqueci completamente de trazer trocado.

 

– Não posso não, a madame não leu o aviso – olha ele ali – que o troco máximo é de 200 cruzeiros?(b)

 

– Eu sei, mas que é que hei de fazer agora? O senhor nunca esqueceu nada na vida?

 

– Quem sabe se procurando de novo na bolsa...

 

Ela vasculhava, remexia, nada. Nenhum cavalheiro (como se dizia no tempo do meu pai) se moveu para salvar a situação, oferecendo troco ou se prontificando a pagar a passagem. Àquela hora não havia cavalheiros, pelo menos na lotação.

 

– Então o senhor me dá licença de saltar e ficar devendo.

 

– Pera aí. Vou ver se posso trocar.

 

Podia. Tirou do bolso de trás um bolo respeitável, foi botando as cédulas sobre o joelho, meticulosamente.

 

– Tá aqui o seu troco. De outra vez a madame já sabe, hem?

 

Ela desceu, o carro já havia começado a chispar, como é destino dos lotações, quando de repente o motorista freou e botou as mãos à cabeça: – Os senhores acreditam que em vez de guardar a nota de mil, eu de burro, devolvi com o troco?

 

Botou a cabeça fora do carro, à procura da senhora, que atravessava a rua, lá atrás: – Dona! Ó dona! A nota de mil cruzeiros!

 

Os passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora.(c)

 

– Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros?(d)

 

Encostou o veículo e, num gesto solene: – Vou buscar meu cabral. A partir deste momento, confio este carro, com todos os seus pertences, à distinção dos senhores passageiros.

 

– Deixa que eu vou! – disse um deles, garoto. E precipitou-se para fora, antes do motorista.(e)

 

Via-se o garoto correndo para alcançar a senhora, tocando-a pelo braço, os dois confabulando. Ela abria de novo a bolsa, tirava objetos, o pequeno ajudava. Os passageiros já se mostravam impacientes com a demora da expedição. O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros?(a) O Serviço de Trânsito? Voltou o garoto, sem a nota. A senhora tinha apenas 987 cruzeiros, ele vira e jurava por ela.

 

– Tão vendo? Um prejuízo desses antes do almoço é de tirar a fome e a vontade de comer. – disse em tom frio, sem revolta, como simples remate. E tocou.

 

Perto do colégio, o garoto desceu, repetindo, encabulado: – Pode acreditar, ela não tinha mesmo o dinheiro não.

 

O motorista respondeu-lhe baixinho: – Eu sei. Já vi que está ali debaixo da caixa de fósforos. Mas se eu disser isso, esse povo me mata.

 

(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. et al. Para gostar de ler, v.2.

São Paulo: Ática, 1966, p. 43-45)

 

A voz do personagem mescla-se à voz do cronista, configurando o chamado discurso indireto livre, em:

  1. O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros?
  2. — Não posso não, a madame não leu o aviso — olha ele ali — que o troco máximo é de 200 cruzeiros?
  3. Os passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora.
  4. — Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros?
  5. — Deixa que eu vou! — disse um deles, garoto. E precipitou-se para fora, antes do motorista.
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Gabarito

A

Comentário do professor

O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros?

Esse enunciado é exemplo de discurso indireto livre porque funde a narração em 3.ª pessoa com a voz íntima da personagem. Não há marcas de citação nem verbo dicendi, mas aparece a formulação interrogativa e coloquial típica do falante: quem é que me paga meus mil cruzeiros?

Note-se a ausência de travessões ou aspas e a manutenção do tempo e da perspectiva do narrador, enquanto o conteúdo expressa o encolerizado ou confuso pensamento da personagem. Essa combinação cria uma fala interior relatada sem mediação direta.

O efeito é a aproximação ao ponto de vista do personagem, conferindo imediatismo e ironia, característica marcante do discurso indireto livre.

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