Questão FC654955
Depois que vê a garota ele corre se olhar no espelho: não pode negar, meio feio? quase feio? Numa palavra, feio. Dia seguinte desiste do bigode ralo. Quem sabe costeleta ou cavanha
Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre)
FCC · 2022
Depois que vê a garota ele corre se olhar no espelho: não pode negar, meio feio? quase feio? Numa palavra, feio. Dia seguinte desiste do bigode ralo. Quem sabe costeleta ou cavanhaque? A menina o enfeitiça. Possuído, sim. Febrícula, sonho delirante, falta de ar, sede mas não de água. Ela surge enrolada no garfo do suculento espaguete à bolonhesa. De sainha xadrez na primeira tarde, ó deliciosa bolacha Maria com geleia de uva. Formigas de fogo mordem sob a camisa quando ela vem na rua, brincando com o arco-íris na ponta dos dedos.
Consegue afinal apertar-lhe a mãozinha na luva de crochê, ri (descuidoso de ser feio) dentro de seus olhos glaucos. Discutem o narizinho, quem sabe arrebitado, segundo ela. E para ele, nada mais bonito que tal narizinho. Meio do sono acorda, olho arregalado no escuro. A sua imagem o percorre, impetuoso vento por uma casa de portas abertas. Ninguém por perto, fala sozinho. A mãe o acha mais magro. Quem dera ser o terceiro motociclista do Globo da Morte.
Em guarda no portão, as mãos suadas, fumando. Ela aparece: um caramanchão florido de glicínia azul. Olhinho esquivo que fixa e foge. O sorriso (uma virgem fatal?) na pequena boca fresca. Um dentinho ectópico no lado esquerdo, onde a palavra tiau esbarra quando sai. Ah, se ela deixar, passa o resto da vida adorando esse dentinho. Espera outras vezes, fumando aflito, um cigarro aceso no outro. Ele mesmo um cigarro em chamas. A mocinha não quer lhe dar a mão. Como pode, uma santinha disfarçada na terra? Depois, deu.
Brava, ainda mais linda. Toda rosa, o lenço no pescoço, gatinha na janela depois do banho. A curva altaneira da testa, os cachos loiros arrepiados ao vento. Ai, não, uma pérola na orelha. A pérola da orelha. Uma divina orelhinha esquerda, sabe o que é? A voz meio rouca: Adivinhe o que eu tenho na mão? “Bem, pode ser tanta coisa.” Bala de mel, seu bobo. Pra você que não merece. Já esquecido de timidez e feiura: “Sabe o que eu mais quero? É embalar você no colo.” Pronto, ofendida, lhe negaceou o rosto. De mal, até amanhã. Amanhã nosso herói vai cultivar uma barbicha.
(TREVISAN, Dalton. Namorada. Adaptado de: https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/Pagina/Namorada)
Já esquecido de timidez e feiura: “Sabe o que eu mais quero? É embalar você no colo.”
O período acima poderia ser reescrito em discurso indireto da seguinte forma:
Já esquecido de timidez e feiura, ele perguntou para ela
- para que soubesse o que ele mais queria. E respondeu que era embalá-la no colo.
- se soube o que ele mais quis. E respondeu que seria embalar você no colo.
- se sabia o que ele mais queria. E respondeu que era embalá-la no colo.
- para que soubera o que ele mais quis. E respondeu que poderia ser embalar você no colo.
- se soubesse o que ele mais queria. E respondeu que é embalá-la no colo.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
A alternativa C está correta porque aplica corretamente a transposição do discurso direto para o indireto. A pergunta “Sabe o que eu mais quero?” vira oração subordinada introdutora por se, típica de perguntas fechadas, e o verbo muda para o pretérito imperfeito: Sabe → sabia.
O conteúdo da resposta também sofre mudança temporal e de pessoa: “É embalar você no colo.” exige ajuste para o tempo do narrador e para a 3ª pessoa, ficando era e o infinitivo com pronome oblíquo átono adequado, embalá-la. Assim obtém-se: ele perguntou para ela se sabia o que ele mais queria. E respondeu que era embalá-la no colo.
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