Questão FC654972
Nosso conhecimento não era de estudar em livros. Era de pegar de apalpar de ouvir e de outros sentidos. Seria um saber primordial?
Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre)
FCC · 2022
Para responder a questão considere o poema abaixo do escritor mato-grossense Manoel de Barros.
Nosso conhecimento não era de estudar em livros. Era de pegar de apalpar de ouvir e de outros sentidos. Seria um saber primordial?
Nossas palavras se ajuntavam uma na outra por amor e não por sintaxe.
A gente queria o arpejo. O canto. O gorjeio das palavras. Um dia tentamos até de fazer um cruzamento de árvores com passarinhos para obter gorjeios em nossas palavras.
Não obtivemos. Estamos esperando até hoje. Mas bem ficamos sabendo que é também das percepções primárias que nascem arpejos e canções e gorjeios. Porém naquela altura a gente gostava mais das palavras desbocadas.
Tipo assim: Eu queria pegar na bunda do vento. O pai disse que vento não tem bunda. Pelo que ficamos frustrados. Mas o pai apoiava a nossa maneira de desver o mundo que era a nossa maneira de sair do enfado.
A gente não gostava de explicar as imagens porque explicar afasta as falas da imaginação.
A gente gostava dos sentidos desarticulados como a conversa dos passarinhos no chão a comer pedaços de mosca.
Certas visões não significavam nada mas eram passeios verbais.
A gente sempre queria dar brasão às borboletas. A gente gostava bem das vadiações com as palavras do que das prisões gramaticais.
Quando o menino disse que queria passar para as palavras suas peraltagens até os caracóis apoiaram. A gente se encostava na tarde como se a tarde fosse um poste.
A gente gostava das palavras quando elas perturbavam os sentidos normais da fala. Esses meninos faziam parte do arrebol como os passarinhos.
(BARROS, Manoel de. Menino do mato. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015)
“o menino disse que queria passar para as palavras suas peraltagens”
Transposto para o discurso direto, o trecho acima assume a seguinte redação: O menino disse:
- − Quero passar suas peraltagens para as palavras.
- − Quis passar suas peraltagens para as palavras.
- − Quisera passar minhas peraltagens para as palavras.
- − Quero passar minhas peraltagens para as palavras.
- − Quis passar minhas peraltagens para as palavras.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A alternativa correta reproduz a fala do menino em discurso direto, isto é, restaura a oração que ele pronunciou naquele instante.
Na transposição, há a troca de pessoa: o possessivo suas (referente ao menino na oração subordinada) passa para a 1.ª pessoa minhas, porque quem fala é o próprio menino.
Quanto ao tempo verbal, o pretérito do relato queria volta ao modo e tempo originais da fala do menino, formando Quero, expressão direta do desejo naquele momento.
Por fim, ajusta-se a ordem para maior naturalidade: passar minhas peraltagens para as palavras, com a pontuação correta após o verbo enunciador: O menino disse: seguido da fala iniciada em maiúscula.
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