Questão FC654975
Mas será só isso? Estaremos condenados a esse estranho oxímoro, o relativismo absoluto, e à morte do diálogo? Ou haverá um modo menos cínico de lidar com visões de mundo divergente
Linguagem
FCC · 2022
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.
Estamos todos nos fanatizando?
O que separa alguém de convicções firmes de um fanático? A resposta não é fácil e pode mesmo ser impossível, ou antes subjetiva, dependente de crenças tão enraizadas em cada um de nós que mergulham no visceral, no irracional. Em resumo, fanatismo é a convicção firme dos que discordam de mim e portanto estão errados; convicção firme é o fanatismo de quem pensa como eu, logo está certo. As palavras não são inocentes.
Mas será só isso? Estaremos condenados a esse estranho oxímoro, o relativismo absoluto, e à morte do diálogo? Ou haverá um modo menos cínico de lidar com visões de mundo divergentes? Em outras palavras, será possível recuperar um solo comum em que adversários negociem, firmem pactos em torno de certos – talvez poucos, mas cruciais – objetivos compartilhados?
A palavra fanatismo tem duas acepções no Houaiss. A primeira é “zelo religioso obsessivo que pode levar a extremos de intolerância”. A segunda, derivada daquela por extensão, “facciosismo partidário; adesão cega a um sistema ou doutrina; dedicação excessiva a alguém ou algo; paixão”. A palavra passou ao português (em fins do século 18) como versão importada do adjetivo latino derivado de “fanum”, lugar sagrado, campo santo. O “fanaticus” tinha conotações positivas a princípio – era o inspirado pela chama divina –, mas não demorou a ganhar acepções como furioso, louco e delirante.
(Adaptado de: RODRIGUES, Sérgio. Folha de S. Paulo. 24.nov.2021)
Ao analisar o sentido de fanatismo, o autor esclarece que essa palavra
- se firmou originalmente no campo da política partidária, como meio de distinguir as pessoas de mais sólida convicção.
- teve seu sentido dinamizado ao longo do tempo, abrangendo um campo religioso radical e expandindo-se em outras obsessões.
- se aplica invariavelmente ao caso daqueles que partem de uma avaliação irracional para uma qualificação mais objetiva dos fatos.
- conservou intacta, em seu processamento, a precisa conotação religiosa de quem sacraliza suas paixões mais generosas.
- acentuou o caráter pejorativo de sua raiz política quando passou a se aplicar às práticas religiosas do nosso tempo.
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Gabarito
B
Comentário do professor
A alternativa está correta porque o texto mostra que o sentido de fanatismo sofreu alteração semântica histórica e passou a ter usos mais amplos.
O autor transcreve o Houaiss: a primeira acepção é “zelo religioso obsessivo”, enquanto a segunda, derivada por extensão, inclui “facciosismo partidário; adesão cega a um sistema ou doutrina; dedicação excessiva a alguém ou algo”.
Esse percurso etimológico e semântico — do latim ligado ao sagrado até sentidos como “furioso, louco, delirante” — mostra que o termo foi dinamizado, mantendo a raiz religiosa e expandindo-se para outras formas de obsessão.
Portanto, a alternativa resume corretamente essa evolução de sentido ao longo do tempo.
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