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Questão FC654990

Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo. [Eternidade do guarda-chuva] Ontem choveu demais e eu precisava ir a três pontos diferentes da cidade. Quando o moço do jornal

Linguagem

FCC · 2025

Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo.

 

[Eternidade do guarda-chuva]

 

Ontem choveu demais e eu precisava ir a três pontos diferentes da cidade. Quando o moço do jornal veio apanhar a crônica que eu acabara de escrever, pedi-lhe que me comprasse um guarda-chuva(c) que parecesse digno da classe média, e ele o fez com competência. Depois de cumprir meus afazeres voltei para casa, pendurei o guarda-chuva a um canto e me pus a contemplá-lo.(d) Senti então uma certa simpatia por ele, meu velho rancor contra os guarda-chuvas cedeu lugar a um estranho carinho, e eu mesmo fiquei curioso para saber qual a origem desse carinho.(e)

 

Pensando bem, ele talvez derive do fato de ser o guarda-chuva o objeto do mundo moderno mais intenso a mudanças. Sou apenas um quarentão, e praticamente nenhum objeto da minha infância existe mais em sua forma primitiva. De máquinas como telefone, automóvel etc., nem é bom falar. Mil pequenos objetos de uso mudaram de forma, de cor, de material; em alguns casos, é verdade, para melhor; mas mudaram.

 

O guarda-chuva tem resistido. Suas irmãs, as sombrinhas, já se entregaram aos piores desregramentos futuristas e tanto abusaram que até caíram de moda. Ele permaneceu austero, negro, com seu cabo e suas invariáveis varetas. De junco fino ou pinho vulgar, de algodão ou de seda animal, pobre ou rico, ele tem se mantido digno. Reparem que é um dos engenhos mais curiosos que o homem inventou;(a) tem ao mesmo tempo algo de ridículo e de fúnebre, essa pequena barraca. Nada disso, entretanto, lhe tira o ar honrado. Entrou calmamente pela era atômica, e olha com ironia a arquitetura e os móveis chamados funcionais. Ele já era funcional muito antes de se usar esse adjetivo; e tanto que a fantasia, a inquietação e a ânsia de variedade do homem não conseguiram modificá-lo em coisa alguma.

 

Ali está ele, meio aberto, ainda molhado, choroso; descansa com uma espécie de humildade(b) ou paciência humana; se tivesse liberdade de movimentos não duvido de que iria para cima do telhado quentar sol*, como fazem os urubus.

 

*quentar sol: forma popular para "esquentar ao sol"

 

(Adaptado de BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Reoord, 1978, p. 217-218)

 

Na relação do autor com o guarda-chuva comparece uma figura de linguagem conhecida como personificação, tal como se dá neste segmento:

  1. é um dos engenhos mais curiosos que o homem inventou
  2. descansa com uma espécie de humildade
  3. pedi-lhe que me comprasse um guarda-chuva
  4. pendurei o guarda-chuva a um canto e me pus a contemplá-lo
  5. fiquei curioso para saber qual a origem desse carinho
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Gabarito

B

Comentário do professor

Personificação é a figura de linguagem em que se atribuem a seres inanimados ações, sentimentos ou qualidades humanas. Na frase “descansa com uma espécie de humildade”, o autor confere ao guarda-chuva a ação típica de uma pessoa, descansa, e um traço moral ou emocional, humildade.

Essa atribuição transforma o objeto em sujeito de comportamento humano, tornando-o mais próximo do narrador e do leitor. O efeito estilístico é humanizar o guarda-chuva, provocar empatia e enfatizar sua presença calma e digna no ambiente doméstico.

Portanto, a alternativa é correta porque a expressão exemplifica claramente a técnica de dar vida e sentimentos humanos a um objeto inanimado, que é justamente o que se espera da personificação.

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