Questão FC654995
– Bassau rarim ai montul?
Linguagem
FCC · 2025
Para responder à questão, considere a crônica "O homem que falava naiki" do escritor Luis Fernando Veríssimo (1936-2025).
Quando queriam dar uma ideia de erudição do dr. Solis, as pessoas diziam:
– Basta dizer que ele fala naiki.
Ninguém sabia onde, no mundo, se falava naiki e o próprio dr. Solis, sempre muito circunspecto1, não ajudava.(d) Dizia apenas:
– É uma língua do grupo dravídico...
Os pais apontavam o dr. Solis às crianças como exemplo de inteligência e cultura. Aliás, os dois exemplos da cidade eram o dr. Solis e o Lelo. O dr. Solis era o exemplo de inteligência e o Lelo, o exemplo de burrice. As crianças deviam estudar para não ser como o lelo. E se estudassem muito um dia ainda seriam como o dr. Solis.(e)
Caravanas de estudantes iam à casa do dr. Solis. “Viemos beber da sua cultura”, dizia a professora. E as crianças, um pouco assustadas, rodeavam o dr. Solis na sua biblioteca. O dr. Solis sorria, pacientemente. Alguma pergunta?
– O senhor já leu todos esses livros?
– Já.
Às vezes uma se arriscava e pedia:
– Diz alguma coisa em naiki.
E o dr. Solis:
– Za cadu arrarmarral cadverno.
– Traduz.
Mas aquilo já era pedir demais. A professora arrebanhava as crianças para irem embora. Estavam cansando a inteligência do dr. Solis.
Alguns céticos da cidade desconfiavam que o dr. Solis era um farsante.(a) E prepararam uma armadilha. Um dia chegaram na casa do dr. Solis com a notícia de que aparecera na cidade, imagine, outra pessoa que falava naiki. O dr. Solis não se afobou. Perguntou onde estava essa pessoa. No hotel? Muito bem. Então precisava ir até lá conversar com ela.
A novidade, como podem imaginar, se espalhou rápido. O Lelo anunciou que ia haver um monólogo entre os dois, e em naiki.(c) Quando o dr. Solis chegou no hotel havia um bom público para assistir ao encontro das duas inteligências. O forasteiro, outro farsante, contratado para pôr o dr. Solis à prova, já o recebeu com uma frase:
– Bassau rarim ai montul?
O dr. Solis franziu a testa e ficou olhando para o forasteiro, sem dizer nada.(b) Depois disse:
– Como?
Já com um ar superior, o outro repetiu:
– Bassau rarim ai montul?
Suspense na plateia. O dr. Solis seria desmascarado? Será que os céticos tinham razão? Que todo este tempo o dr. Solis mentia para eles e realmente não sabia uma palavra em naiki? Nem "bom dia"?
– Repita, por favor – pediu o dr. Solis.
– Bassau rarim ai montul?
Aí o dr. Solis sacudiu a cabeça lentamente e, com um sorriso de divertida condescendência para seu interlocutor, comentou:
– Esses dialetos...
Foi carregado em triunfo pelas ruas da cidade. Que cabeça! Na frente do cortejo ia o Lelo, gritando:
– É um potentado2. É um potentado!
(Adaptado de: VERISSIMO, Luis Fernando. Novas comédias da vida privada.
Porto Alegre: L&PM, 1996, p. 125-126)
1 circunspecto: reservado.
2 potentado: indivíduo poderoso.
Com finalidade humorística, o cronista recorre a um enunciado paradoxal no seguinte trecho:
- Alguns céticos da cidade desconfiavam que o dr. Solis era um farsante.
- O dr. Solis franziu a testa e ficou olhando para o forasteiro, sem dizer nada.
- O Lelo anunciou que ia haver um monólogo entre os dois, e em naiki.
- Ninguém sabia onde, no mundo, se falava naiki e o próprio dr. Solis, sempre muito circunspecto, não ajudava.
- E se estudassem muito um dia ainda seriam como o dr. Solis.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
O Lelo anunciou que ia haver um monólogo entre os dois, e em naiki. é um enunciado paradoxal porque combina termos semanticamente incompatíveis: monólogo indica discurso de uma única pessoa (do grego mono = um), enquanto a expressão entre os dois pressupõe interlocução de duas pessoas.
Essa justaposição de ideias contraditórias configura o recurso retórico do paradoxo, que aproxima no mesmo enunciado noções opostas para gerar efeito expressivo.
No contexto da crônica, o paradoxo produz humor por incongruência: revela, de forma irônica, a falta de precisão verbal do personagem Lelo e acentua a comicidade da situação sem precisar explicitar a crítica.
A contradição lexical transforma a fala num recurso metalinguístico, divertindo o leitor ao expor a liminar confusão entre termos opostos.
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