FC ConcursosFC Concursos

Questão FC654999

Atenção: Para responder à questão, leia a crônica abaixo. Sinto nojo e medo de lagartixas domésticas, acabei odiando o pobre bicho.a Outro dia vi um menino brincar com uma, das men

Linguagem

FCC · 2022

Atenção: Para responder à questão, leia a crônica abaixo.

Sinto nojo e medo de lagartixas domésticas, acabei odiando o pobre bicho.a Outro dia vi um menino brincar com uma, das menores por sinal, e estremeci como se a criança estivesse a cutucar um violento jacaré.

 

Meu apartamento vinha sendo a residência de três enormes lagartixinhas. Noites mal dormidas. Pensei: preciso matá-las para livrar-me do receio de que me caiam na cara durante o sono.b

 

Ontem, liquidei duas.

 

A primeira foi mais difícil. Para começar, fitei-a longamente, como a convencer-me de minha superioridade física e moral.c

 

Armado de um cabo de vassoura, aproximei-me cauteloso, enquanto ela me olhava, a duvidar de minhas reais intenções. Não é possível – concluiu – que este sujeito vai me dar, a mim que nada lhe fiz, uma cacetadad. Como eu continuasse avançando, recuou um pouco, mas, pejando-se da covardia, tornou a refletir que eu não teria motivos para maltratá-la.

 

Seu nobre raciocínio custou-lhe o rabo, o rabo porque, no desconcerto da emoção, o golpe desviou-se alguns centímetros do alvo. Enquanto o rabo – momento puro de misterioso terror – estertorava no chão, a bichinha esgueirou-se pela parede, ocultando-se atrás de um móvel. Os saltos do rabo solitário me acabrunhavam. Senti meu valor desfalecer. Agora, no entanto, o problema era outro: tratava-se, piedosamente, de livrar a lagartixa daquele rabo inquieto, ou seja, destruir a lagartixa aleijada. De que vale uma lagartixa sem rabo? De que vale um rabo sem lagartixa? Afastei o móvel, tive a impressão triunfante de que ela fremia de horror.

 

Desferi o segundo golpe com tal confusão de sentimentos que a infeliz ficou descadeirada. Tonta, sem noção do perigo, começou a arrastar-se penosamente pelo rodapé, desgraciosa e lenta. Com a terceira bordoada, estrebuchou de barriga para cima. É cadáver, respirei.

 

Coisa nenhuma. Ao remover o corpo, fui surpreendido por um pulo que a colocou de novo, toda estragada, na posição normale. Veio-me um frio ruim à espinha. Tive vontade de sair, dar uma volta pela praia, tomar um conhaque. A essa altura, entretanto, já não podia permitir a mim mesmo fraquezas dessa espécie. O tiro de misericórdia (ai de mim) teria liquidado uma gambá.

 

O assassinato da segunda (a verificação chocou-me bastante) foi incomparavelmente mais fácil. Menos emocionado, já meio habituado ao crime, desferi apenas dois golpes furiosos e fatais.

 

Joguei os corpos no lixo, e estava a escrever isto, quando alguém, lendo por cima do meu ombro, corrigiu a minha ignorância em dois pontos: primeiro, que lagartixa dá sorte; segundo, que, decepado o rabo de uma lagartixa, cresce-lhe outro. Assim sendo, quanto ao rabo retifico logo: uma lagartixa sem rabo, a longo prazo, vale uma lagartixa inteira. No tocante à sorte, quero dizer que o extermínio das duas inocentes parece que me ajudou muito a libertar-me do medo. A terceira lagartixa, ausente na hora da matança, pode ficar agradecida ao sacrifício de suas irmãs. E se ela me der sorte, eu lhe pouparei a vida.

 

(CAMPOS, Paulo Mendes. Balé de pato. São Paulo: Ática, 2012)

 

A personificação é um recurso expressivo por meio do qual se emprestam sentimentos humanos a seres inanimados, a animais, a mortos ou a ausentes. Observa-se esse recurso expressivo em:

  1. Sinto nojo e medo de lagartixas domésticas, acabei odiando o pobre bicho.
  2. Pensei: preciso matá-las para livrar-me do receio de que me caiam na cara durante o sono.
  3. Para começar, fitei-a longamente, como a convencer-me de minha superioridade física e moral.
  4. Não é possível – concluiu – que este sujeito vai me dar, a mim que nada lhe fiz, uma cacetada.
  5. Ao remover o corpo, fui surpreendido por um pulo que a colocou de novo, toda estragada, na posição normal.
Mostrar resposta e comentário

Gabarito

D

Comentário do professor

Personificação é atribuir a seres não humanos capacidades tipicamente humanas, como pensar, falar ou sentir com explicitude.

No trecho "Não é possível – concluiu – que este sujeito vai me dar, a mim que nada lhe fiz, uma cacetada.", o narrador coloca um ato mental, o verbo concluir, na boca da lagartixa.

Isso significa que ao animal é imputado o processo de raciocínio e julgamento, algo próprio da interioridade humana, o que caracteriza claramente a figura expressiva.

A presença do verbo que indica pensamento e a construção em discurso indireto mostram que a lagartixa recebe traços humanos, configurando a personificação.

Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em

Continue aprendendo