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Questão FC655002

Para responder a questão, considere um trecho do romance Quincas Borba, de Machado de Assis. Rubião fitava a enseada, – eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares met

Linguagem

FCC · 2022

Para responder a questão, considere um trecho do romance Quincas Borba, de Machado de Assis.

 

Rubião fitava a enseada, – eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra coisa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.

 

– Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa ele. Se mana Piedade tem casado com Quincas Borba, apenas me daria uma esperança colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça...

 

Que abismo que há entre o espírito e o coração! O espírito do ex-professor, vexado daquele pensamento, arrepiou caminho, buscou outro assunto, uma canoa que ia passando; o coração, porém, deixou-se estar a bater de alegria. Que lhe importa a canoa nem o canoeiro, que os olhos de Rubião acompanham, arregalados? Ele, coração, vai dizendo que, uma vez que a mana Piedade tinha de morrer, foi bom que não casasse; podia vir um filho ou uma filha... – Bonita canoa! – Antes assim! – Como obedece bem aos remos do homem! – O certo é que eles estão no Céu!

 

Um criado trouxe o café. Rubião pegou na xícara e, enquanto lhe deitava açúcar, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada. Prata, ouro, eram os metais que amava de coração; não gostava de bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era matéria de preço, e assim se explica este par de figuras que aqui está na sala, um Mefistófeles e um Fausto. Tivesse, porém, de escolher, escolheria a bandeja, – primor de argentaria, execução fina e acabada.

 

(Machado de Assis. Quincas Borba. São Paulo: Companhia das Letras, 2012)

 

A antítese é uma figura pela qual se opõem, numa mesma frase, duas palavras ou dois pensamentos de sentido contrário, a exemplo do que se verifica em:

  1. – Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa ele. (2º parágrafo)
  2. Rubião fitava a enseada, – eram oito horas da manhã. (1º parágrafo)
  3. Que lhe importa a canoa nem o canoeiro, que os olhos de Rubião acompanham, arregalados? (3º parágrafo)
  4. – Como obedece bem aos remos do homem! (3º parágrafo)
  5. Rubião pegou na xícara e, enquanto lhe deitava açúcar, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada. (4º parágrafo)
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Gabarito

A

Comentário do professor

Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa ele.

Essa frase é exemplo de antítese porque reúne, na mesma construção, ideias de sentido oposto: direito contrapõe-se a tortas.

Em contexto, direito modifica o verbo "escrever" (sentido de "bem" ou "devidamente"), enquanto "linhas tortas" evoca o que é curvo, irregular. A convivência dessas noções — escrever "bem" por caminhos "tortos" — cria a oposição que caracteriza a antítese.

Trata-se de um recurso retórico que destaca a ironia da situação: a ideia de acerto ou justiça (direito) surge junto à imagem de desvio (tortas), produzindo contraste e efeito expressivo no pensamento do personagem.

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