Questão FC655027
Todo mundo conhece um caçador de redundâncias. É aquela pessoa adepta de corrigir alguém que diz ou escreve, por exemplo, “azeite de oliva”. “Se é azeite só pode ser de oliva, oliv
Linguagem
FCC · 2026
Todo mundo conhece um caçador de redundâncias. É aquela pessoa adepta de corrigir alguém que diz ou escreve, por exemplo, “azeite de oliva”. “Se é azeite só pode ser de oliva, oliva é azeitona, de azeitona se faz azeite, entendeu? Falar azeite de oliva é o mesmo que falar ‘entrar para dentro’.”
Sempre à espreita de pleonasmos viciosos, de palavras supérfluas, esse tipo especial de sabichão começa estando certo e logo fica errado, erradíssimo. Como se contenta com as primeiras linhas da história, nem desconfia disso, e acaba por protagonizar cenas constrangedoras. Se não sabe que a construção “entrar para dentro” pode, em determinadas circunstâncias, traduzir um reforço legítimo ou até necessário, no caso do azeite seu erro é ignorar que a palavra vinda do árabe “az-zayt” nasceu nos olivais, mas ganhou o mundo. Foi rápido o processo de expansão do sentido de azeite, que logo designava diversos tipos de óleo vegetal – azeite de dendê, por exemplo – e até de origem animal.
Em outras palavras, a azeitona perdeu os direitos exclusivos sobre o azeite, que de óleo extraído dela virou genérico e foi azeitar sentidos variados pelo mundo. Daí a necessidade de um qualificativo, “de oliva”, para marcar seu significado primeiro e evitar mal-entendidos. O nome disso não é pleonasmo vicioso. É só a língua se mexendo em seu espetáculo habitual de metáfora e metonímia, quer dizer, de vida. Como se sabe, nada irrita mais os sabichões.
Mal se livrou do caçador de redundâncias, o pobre azeite de oliva já precisa encarar, que sina, o maníaco do sentido literal: “Como não é extraído de uma oliva só, o certo é azeite de olivas”. Este pensa que a língua é um kit de mecânica cheio de peças únicas com funções unívocas, quando uma metáfora mais funcional para ela é um kit de química, com as palavras se entrechocando e gerando uma infinidade de reações, muitas surpreendentes, algumas com cara de magia. Mas esse é outro capítulo no almanaque do sabichonismo.
(RODRIGUES, Sérgio. Disponível em: www1.folha.uol.com.br/colunas/sergio-rodrigues. Adaptado)
Ao refletir sobre o uso da linguagem, o autor
- critica a hipercorreção, fenômeno linguístico em que o falante, na tentativa de soar mais formal, exagera na aplicação de regras gramaticais.
- analisa o uso da expressão entrar para dentro, a fim de redefinir formalmente o conceito de pleonasmo vicioso.
- identifica-se com o chamado caçador de redundâncias, que condena expressões empregadas sem critério na comunicação virtual.
- assinala que certas expressões aparentemente redundantes são funcionais em determinados contextos.
- condena o uso indevido de palavras oriundas de língua estrangeira, que acabam sendo usadas fora do contexto histórico original.
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Gabarito
D
Comentário do professor
O autor mostra que expressões tidas como redundantes podem ter função comunicativa legítima. Ao discutir azeite de oliva e entrar para dentro, ele explica que a repetição ou o qualificativo servem para esclarecer, reforçar ou evitar ambiguidades quando o sentido de uma palavra se amplia.
Argumenta que a língua evolui: termos perdem ou ganham sentidos, e por isso um elemento aparentemente supérfluo passa a ser necessário para marcar o significado original. Esse uso não é erro, mas uma estratégia linguística funcional.
Assim, o autor defende que o que parece redundância muitas vezes é recurso de precisão semanticacontexto.
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