Questão FC655078
Leia o texto. Da desigualdade entre os homens Disse Plutarco que a diferença entre um animal e outro é menor do que a que vai de um a outro homem. Referia-se ele à alma e às qualid
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2026
Leia o texto.
Da desigualdade entre os homens
Disse Plutarco que a diferença entre um animal e outro é menor do que a que vai de um a outro homem. Referia-se ele à alma e às qualidades intelectuais. Por mim, não hesitaria em ser mais peremptório, dizendo que a diferença entre tal e tal homem é maior do que entre tal homem e tal bicho. O espírito humano comporta tantos graus quantas braças vão daqui ao céu.
No que concerne à apreciação das coisas, é espantoso que tudo julgando pelas suas qualidades específicas não nos encaremos da mesma maneira. Elogiamos um cavalo por ser vigoroso e ágil, e não por causa do arreio; elogiamos o galgo pela velocidade e não pela coleira; por que, pois, não apreciarmos o homem pelas suas qualidades específicas? É necessário julgar o homem em si e não pelos seus adornos. Como diz espirituosamente um filósofo do passado: “Sabeis por que achais grande esse homem? Porque o medis com o pedestal.”
Os cortesãos elogiavam uma de feita o imperador Juliano porque se esforçava por ser justo. “Orgulhar-me-ia de vossas louvações — disse — se viessem de pessoas que ousassem denunciar e censurar meus atos, caso me conduzisse de outra maneira.” Os aduladores de Alexandre, o Grande, repetiam-lhe sem descontinuar que ele era filho de Júpiter. Certa vez, olhando o sangue que lhe escorria de um ferimento, disse ele: “Então, que vos parece? Não achais que é um sangue vermelho como o de qualquer ser humano? Ou ele é da cor do sangue que o poeta Homero põe nos ferimentos dos deuses?”
Se um homem não tiver valor próprio não lho dará o império do mundo. Mesmo que as jovens o disputem, que por toda parte nasçam rosas sob seus pés, de que servirá tudo isso se tem a alma grosseira e o espírito lerdo? Sem vigor e sem espírito não se chega a sentir a plena felicidade, sequer a volúpia. O valor das coisas depende de quem as possui: boas para os que sabem utilizá-las, são más para quem as emprega mal. Para saborear os bens, quaisquer que sejam os que nos outorga o destino, cumpre ter o bom sentimento que a sensação cria.
(Adaptado de: MONTAIGNE, Michel. Ensaios. São Paulo: Editora 34, 2016. p. 287-294, passim)
As frases do imperador Juliano e de Alexandre, o Grande, citadas no 3º parágrafo,
- acentuam o critério da verdade limpa que deve contar para o reconhecimento de alguma virtude.
- condenam o desprendimento estoico que costuma marcar as relações de poder entre desiguais.
- divergem quanto à importância que cada um deles atribui à submissão manifesta de seus comandados.
- deixam ver que eram ambos generosamente sensíveis às louvações de seus comandados.
- demonstram que suas reais virtudes eram amplamente reconhecidas por seus subordinados.
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Gabarito
A
Comentário do professor
Ambas as falas sublinham o papel da verdade limpa como critério para o reconhecimento de uma virtude.
No caso de Juliano, ele rejeita a bajulação e afirma que só valoraria louvores vindos de quem também o denunciaria se agisse mal, ou seja, pede uma crítica honesta como prova de apreço verdadeiro.
Ao mostrar o sangue, Alexandre relativiza a imagem divina e lembra sua humanidade, usando um dado concreto para desfazer mitos e exigir que a avaliação se baseie em factos, não em ornamentos.
Assim, ambas as demonstrações exigem autenticidade na apreciação: virtude reconhecida deve vir de um julgamento franco e despojado de adulações.
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