Questão FC655084
- Considere o texto abaixo para responder a questão. A Grécia clássica experimentou uma deificação da saúde: Higeia, filha de Asclépio, o deus da medicina, personificava a dádiva d
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2026
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Considere o texto abaixo para responder a questão.
A Grécia clássica experimentou uma deificação da saúde: Higeia, filha de Asclépio, o deus da medicina, personificava a dádiva do pai, como deusa da saúde, limpeza e sanidade, e seu culto foi introduzido em Atenas por volta do ano 420 a.C.
Higeia sugeria misteriosamente a escolha dos alimentos necessários à existência e os remédios apropriados aos males. Ela também sustentava a força dos mortais, prevenindo as doenças. Não estamos propondo que a criação do mito de Higeia foi influenciada pela medicina dietética ou vice-versa. Para fazer tal afirmação, precisaríamos saber com certeza a data do surgimento de cada um deles. Mas parece que a Grécia dos séculos V e IV a.C. foi também a “Grécia da saúde”.
A medicina dietética, com suas técnicas de prevenção da saúde, estendeu seu poder de influência em diversas áreas da vida humana: alimentação, relações sexuais, banhos e exercícios. A dietética foi propícia para se construir uma medicina social que interagiu nos costumes com o pretexto de curar as enfermidades. No Corpus hippocraticum, a palavra diaita aparece com o sentido de “tratamento”, mas a dietética não possuiria somente fins terapêuticos: ela serviria para preservação e promoção da saúde, bem como a prevenção das doenças.
A vida do homem estava então “medicalizada”, a ponto de trocar a prática da virtude e da política pelo cuidado com a saúde. De acordo com Platão, o advento da medicina dietética fez o rico se tornar “nosotrófico”. Platão cunha a palavra “nosotrofia”, isto é, o ato de criar ou alimentar as doenças. Segundo ele, os ricos abandonaram suas obrigações com a pólis para cuidar de sua saúde, esquivando-se de responsabilidades: *[...] é o que se observa principalmente com esse cuidado excessivo do corpo, que vai muito além dos exercícios usuais de ginástica. Prejudica até mesmo os trabalhos de casa, o serviço nas campanhas militares e as obrigações civis em tempo de paz” (Platão, República, 407b).
Hoje, de formas diferentes, o culto à saúde continua. As estratégias de marketing das empresas farmacêuticas almejam as pessoas saudáveis. Qualquer queixa é transformada em sintoma. “O rolo compressor das campanhas publicitárias [...) transforma as pessoas saudáveis em doentes preocupados”, segundo Moynihan e Wasmes. Ainda hoje, a medicina busca certa primazia sobre a vida do ser humano, mesmo que ele não esteja doente. O pano de fundo é, de certo modo, semelhante ao da Grécia clássica.
(Adaptado de: MATSUI, Sussumo. “O mito de Higeia e a medicina dietética..." Revista Estética Semiótica, v. 6, n. 2, 2016)
Entre a medicina dietética na Antiguidade e a medicina nos dias atuais, o autor do texto
- estabelece um paralelo entre a nosotrofia, louvada por Platão, e o culto à saúde que, na atualidade, restabelece o cuidado antigo com o corpo.
- encontra uma semelhança, o cuidado exagerado com a saúde, antes descrito como a “nutrição da doença”, agora, estimulado pela indústria farmacêutica.
- considera que se deve aprender com os antigos o cuidado cotidiano com a saúde, ao contrário da medicalização estimulada pela indústria farmacêutica atual.
- traz uma diferença de abordagem em relação à saúde, uma vez que a nosotrofia hoje não seria possível dado o marketing da indústria farmacêutica.
- busca traçar a origem de um comportamento de nossa época, o culto à saúde, para que seja mais bem compreendido e dele se exclua a mercantilização promovida pelas empresas.
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Gabarito
B
Comentário do professor
A alternativa correta aponta que o autor identifica uma semelhança entre a medicina dietética antiga e a medicina atual: o excesso de atenção ao corpo. No texto, a Grécia clássica já mostrava uma prática que priorizava cuidados preventivos e cotidianos com a saúde, atitude que Platão critica ao cunhar a palavra nosotrofia, entendida como a nutrição da doença.
O autor traça o paralelo com os dias de hoje ao observar que a indústria farmacêutica e suas estratégias de marketing convertem queixas mínimas em sintomas, atraindo pessoas saudáveis para um papel de pacientes preocupados. Assim, a mesma lógica de ampliar o campo de intervenção médica persiste.
Portanto, a alternativa sintetiza a ideia central do texto: continuidade histórica do cuidado exagerado com a saúde, agora potencializado por interesses comerciais.
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