Questão FC655090
Certo, é preciso estimular as crianças para que elas se desenvolvam na interação com o mundo. Mas o problema é que, sem tédio maçante, ninguém, criança ou adulto, consegue inventar
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2026
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.
A favor do tédio
Alguns livros recentes tratam dos malefícios de nossa constante vontade de encontrar diversões. Como sugere o título de um deles (O vício da distração), de Alex Pange, a vontade de se distrair seria uma forma de dependência. Também já li artigos de revista sobre “os surpreendentes benefícios do tédio”.
Os livros não me pareceram imperdíveis. E os artigos nas revistas de grande circulação citam pesquisas por ouvir dizer. Mas tanto faz. O conjunto manifesta um novo clima segundo o qual a necessidade de sermos entretidos e estimulados continuamente não tornaria nossa vida mais rica e variada; ao contrário, é possível que essa disparidade empobreça nossa experiência.
Já foi dito por evolucionistas que a sorte de nossa espécie foi sua fraqueza: enquanto passávamos horas a fio escondidos e calados nos arbustos, esperando as feras passarem, a imobilidade e o tédio forçados produziriam o surgimento da consciência, do pensamento e da fantasia. Que tal aplicar essa hipótese no campo da educação? O que é mais “educativo” para as crianças? A diversão? Ou a chance de se entediar?
Umberto Eco atribui ao filósofo Benedetto Croce uma frase que ele cita com frequência: “O primeiro dever dos jovens é o de se tornar velhos”. Esse slogan não tem como ser muito popular numa época em que o primeiro dever dos velhos é o de parecerem jovens. De fato, em nossa época os adultos não ajudam os jovens a envelhecer; eles preferem mantê-los na mesma criancice que eles desejam para si.
Certo, é preciso estimular as crianças para que elas se desenvolvam na interação com o mundo. Mas o problema é que, sem tédio maçante, ninguém, criança ou adulto, consegue inventar para si uma vida interior. E para que serve uma vida interior? Se forem pensamentos aos quais recorremos quando não temos nada para fazer, não é mais simples a gente se manter ocupado e não precisar da tal vida interior?
O problema é que há uma boa parte da vida exterior que, sem vida interior, é totalmente insossa. Se não acredita, tente se envolver com as artes, com as amizades ou com o sentimento amoroso levando apenas o ser que você tenha esvaziado. Mesmo entre outras espécies, há lições a observar. Os gatos, por exemplo, são ótimos administradores de seu tédio. Eles sabem se divertir muito bem, quando a ocasião se apresenta, mas também sabem não fazer nada com muita categoria. Nisso, eles batem os cachorros, que sempre parecem aliviados quando finalmente têm algo para fazer.
(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Aproveitar a vida e suas dores.
São Paulo: Planeta, 2025. p. 159-162)
O título do texto – A favor do tédio – expressa a singular posição do autor, quando ele considera
- a vontade de se distrair como uma aspiração desejável e legítima dos jovens.
- a busca obstinada de entretenimento como um empobrecimento de nossas vivências.
- a diversão sistemática como uma pedagogia positiva a ser aplicada às crianças.
- o envelhecimento uma das inclinações naturais a ser interiorizada pelos adultos.
- o lazer programado como uma bem-sucedida experiência de amadurecimento.
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Gabarito
B
Comentário do professor
O título A favor do tédio indica a posição do autor a favor do valor do tédio como contraponto à exigência constante de estímulos.
Logo no segundo parágrafo ele afirma que “a necessidade de sermos entretidos e estimulados continuamente... é possível que essa disparidade empobreça nossa experiência”, expressando claramente a ideia de que a busca incessante por entretenimento reduz a riqueza vivida.
O comentário do autor sustenta que, sem o tédio, não se forma uma vida interior capaz de tornar relações, artes e aprendizagens mais profundas.
Exemplos do texto, como a aplicação dessa hipótese à educação e a comparação entre gatos e cães, reforçam que o autor valoriza o tédio como condição produtiva, não apenas como ausência de atividade.
Assim, o título sintetiza a crítica à obstinação pelo entretenimento e a defesa do tédio como fonte de criatividade e profundidade.
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