Questão FC655104
Atenção: Para responder a questão abaixo, considere o texto a seguir. Passo o dia fazendo uma reportagem, não procuro nem pelo telefone nenhum amigo - e quando anoitece e chego ao
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2025
Atenção: Para responder a questão abaixo, considere o texto a seguir.
Passo o dia fazendo uma reportagem, não procuro nem pelo telefone nenhum amigo - e quando anoitece e chego ao apartamento sou um homem só nesta cidade de São Paulo. Ligo para dois conhecidos; nenhum está em casa. Perdi há tempos meu caderno de endereços; não encontro a lista de telefone. Tomo um banho, mudo a roupa e saio sozinho, sem programa, pelas calçadas formigantes deste começo de noite paulistana.
A ideia de entrar em um restaurante e jantar sozinho me deixa frio. Entro num desses cafés movimentadas da avenida São João, e como um desses pastéis feitos na hora, baratos e quentes com que em outros tempos enganei minha fome, nas noites frias, solitárias e sem dinheiro. Tomo também uma batida, depois peço um sanduíche e mais um pastel e um café; saio para a rua numa vaga noção de estar feliz, andando no meio dessa multidão encapotada que os cinemas de grandes luzes brilhantes vão engolindo em seus enormes ventres negros, onde esses homens e essas mulheres passam duas horas entretidos na mentira de outras vidas em outras terras. Vejo a multidão que sai de um desses cinemas; muitas dessas pessoas se comoveram com a fita, algumas choraram, há famílias enormes que chegam à calçada com um ar desorientado, meio sonâmbulas, e que de repente parecem aflitas de regressar à realidade da rua e de si mesmas, e temem se desagregar no selo da multidão apressada.
Desfilam por mim centenas, milhares de caras, e não conhecer ninguém me dá uma tristeza confortável, essa doçura melancólica da cidade estranha e grande. Entretanto aqui é São Paulo, onde tanto vivi. Entro em um bar ao acaso, mas também não vejo nenhum conhecido; e beber sozinho seria mais triste do que tudo. Agora não procuro mais ninguém; estou apenas vagando pelas ruas, integrado nesse fluir infindável de homens - um homem calado no meio deles, um desconhecido entre desconhecidos, apenas amparado por essa vaga solidariedade feita de alguma coisa de frágil e ao mesmo tempo de hostil, de prevenção e de identidade, que une os transeuntes da mesma rua. E reencontro assim, quase vinte anos depois, mais forte, mais populosa e imponente, a minha São Paulo da vez primeira, onde eu não conhecia ninguém e onde perambulei docemente uma noite inteira, aprendendo a rua com meus olhos e meus pés, gozando devagar o encanto da cidade que escolhera para viver exatamente porque ali não conhecia ninguém.
Mas ouço meu nome; é um amigo que me chama de dentro de um automóvel. Subo ao seu carro, vamos encontrar outros amigos em um bar. Na calçada ficou o fantasma solitário, mas livre e lírico, do rapaz aventureiro de antigamente.
(Adaptado de: BRAGA. Rubem. "o Aventureiro". Rio de Janeiro: Correio da Manha., 22/711952. Disponível em: https://rubl.caurulbarbosa.gov.br)
Na crônica "O Aventureiro", de Rubem Braga,
- a partir de referências concretas, como as ruas, os cafés e as salas de cinema, faz-se uma reflexão a propósito da solidão, ônus a ser pago por quem procura as grandes cidades em busca da liberdade proporcionada pelo anonimato.
- são descritos sucessivos modos de furtar-se à solidão das grandes cidades, que, embora por vezes prazerosa, é causa de uma vida carente de sentido, uma vez que tende a afastar as pessoas do convívio social.
- faz-se uma reflexão acerca do papel da solidão, responsável pela percepção e pelo cuidado de si em um contexto de anonimato e de dissolução das relações humanas.
- advinda da solidão das grandes metrópoles, pouco a pouco ganha corpo a hostilidade entre os transeuntes, contidos, no entanto, por uma mesma situação de desconhecimento e anonimato em meio a multidão.
- a procura de alguma companhia para dirimir a solidão, associada, em seguida, a uma tristeza confortável, cede lugar ao prazer proporcionado por um Indistinto laço fraternal de anonimato com a multidão.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
O texto começa com o narrador tentando contato: "Ligo para dois conhecidos; nenhum está em casa." Essa tentativa mostra a vontade inicial de escapar da solidão.
Ao ceder à falta de companhia, ele transforma o estado solitário em algo ambíguo: a própria expressão "não conhecer ninguém me dá uma tristeza confortável" revela que a solidão passa a ter um componente prazeroso, até provocar uma vaga sensação de felicidade.
Na multidão, essa sensação se encaixa numa relação coletiva: o cronista fala numa "vaga solidariedade feita de alguma coisa de frágil e ao mesmo tempo de hostil". Esse anonimato produz um laço indistinto, quase fraternal, entre desconhecidos.
Portanto, a alternativa correta resume com precisão a transição do desejo por companhia para o prazer do anonimato e do laço impessoal com a multidão.
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