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Questão FC655109

Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo. [Eternidade do guarda-chuva] Ontem choveu demais e eu precisava ir a três pontos diferentes da cidade. Quando o moço do jornal

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2025

Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo.

 

[Eternidade do guarda-chuva]

 

Ontem choveu demais e eu precisava ir a três pontos diferentes da cidade. Quando o moço do jornal veio apanhar a crônica que eu acabara de escrever, pedi-lhe que me comprasse um guarda-chuva que parecesse digno da classe média, e ele o fez com competência. Depois de cumprir meus afazeres voltei para casa, pendurei o guarda-chuva a um canto e me pus a contemplá-lo. Senti então uma certa simpatia por ele, meu velho rancor contra os guarda-chuvas cedeu lugar a um estranho carinho, e eu mesmo fiquei curioso para saber qual a origem desse carinho.

 

Pensando bem, ele talvez derive do fato de ser o guarda-chuva o objeto do mundo moderno mais intenso a mudanças. Sou apenas um quarentão, e praticamente nenhum objeto da minha infância existe mais em sua forma primitiva. De máquinas como telefone, automóvel etc., nem é bom falar. Mil pequenos objetos de uso mudaram de forma, de cor, de material; em alguns casos, é verdade, para melhor; mas mudaram.

 

O guarda-chuva tem resistido. Suas irmãs, as sombrinhas, já se entregaram aos piores desregramentos futuristas e tanto abusaram que até caíram de moda. Ele permaneceu austero, negro, com seu cabo e suas invariáveis varetas. De junco fino ou pinho vulgar, de algodão ou de seda animal, pobre ou rico, ele tem se mantido digno. Reparem que é um dos engenhos mais curiosos que o homem inventou; tem ao mesmo tempo algo de ridículo e de fúnebre, essa pequena barraca. Nada disso, entretanto, lhe tira o ar honrado. Entrou calmamente pela era atômica, e olha com ironia a arquitetura e os móveis chamados funcionais. Ele já era funcional muito antes de se usar esse adjetivo; e tanto que a fantasia, a inquietação e a ânsia de variedade do homem não conseguiram modificá-lo em coisa alguma.

 

Ali está ele, meio aberto, ainda molhado, choroso; descansa com uma espécie de humildade ou paciência humana; se tivesse liberdade de movimentos não duvido de que iria para cima do telhado quentar sol*, como fazem os urubus.

 

*quentar sol: forma popular para "esquentar ao sol"

 

(Adaptado de BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Reoord, 1978, p. 217-218)

 

Ao especular sobre a origem do carinho que passou a sentir pelo seu guarda-chuva, o autor considera que esse sentimento se deve ao fato de o guarda-chuva

  1. evocar lembranças afetivas de um passado remoto.
  2. modernizar-se sem trair sua função primitiva.
  3. constituir uma positiva imagem de algo permanente.
  4. ter uma funcionalidade que se adapta às mudanças.
  5. contrapor-se à inutilidade dos engenhos modernos.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

A alternativa está correta porque o narrador associa explicitamente o carinho à ideia de permanência do objeto em meio às transformações do mundo moderno.

No texto, ele observa que o guarda-chuva "tem resistido", "permaneceu" e "tem se mantido digno", ressaltando sua continuidade formal e funcional ao longo do tempo. Essas expressões sustentam a leitura de que o afeto nasce da constatação de que o objeto não cedeu às modas nem às inovações.

Assim, o guarda-chuva passa a representar uma imagem positiva de constância e durabilidade, e é essa representação simbólica que explica o carinho do autor.

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