Questão FC655121
Sobre a tranquilidade da alma Há desejos nossos que não devem ser levados para muito longe de nós; permitamos-lhes, então, que saiam apenas para as proximidades, de vez que não pod
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2025
Sobre a tranquilidade da alma
Há desejos nossos que não devem ser levados para muito longe de nós; permitamos-lhes, então, que saiam apenas para as proximidades, de vez que não podem ser totalmente domesticados. Abandonando aquilo que não pode acontecer, ou que só muito dificilmente poderia estar ao nosso alcance, sigamos as coisas próximas que favorecem nossa esperança. Saibamos, no entanto, que essas coisas mais junto de nós podem ser levianas, e embora tenham por fora diversas faces, por dentro são igualmente vãs.
E não invejemos as criaturas que estão mais alto: o que parece altura é também precipício. Aqueles, pelo contrário, aos quais uma sorte iníqua conduziu a uma encruzilhada, mais seguros estarão diminuindo sua soberba nas coisas que naturalmente levam á altivez orgulhosa de si.
Muitos, na verdade, existem imperiosamente atados às alturas, e de lá não podem descer a não ser caindo. Nada, todavia, nos livrará das flutuações da alma como o saber fixar sempre um limite às ambições, sem deixá-las ao arbítrio da fortuna, assim como deter-nos a nós mesmos diante das promessas vertiginosas. Ainda que venham a excitar a alma, ou por isso mesmo, alguns dos nossos desejos, uma vez limitados, não avançarão temerariamente às regiões do que é imenso e incerto.
Vejam: é aos imperfeitos, medíocres e insensatos que se dirigem esses meus preceitos, não ao sábio. O sábio não precisa caminhar com timidez, pé ante pé: ele tem tanta confiança em si mesmo e em seus recursos que não hesita em sair ao encontro do seu destino. Não tem, por isso, que temê-lo; aprendeu a viver sabendo o que pertence ao rol das coisas precárias e o que, estando ao seu alcance, cumpre-lhe guardar como seu.
(Adaptado de SÊNECA. Sobre a tranqullldade da alma. Trad. José Rodrigues Seabra Filho. São Paulo: Nova Alexandria. 1994, p. 51)
Ao final do texto, Sêneca explica que seus preceitos se dirigem aos imperfeitos, medíocres e insensatos, porque acredita que
- um homem sábio crê que as coisas precárias existem para se curvarem ao sentimento da ambição.
- as pessoas de má instrução necessitam mais do que as outras das luzes iluminadoras dos ideais humanos.
- as virtudes que ele apregoa visam à conversão de quem não sabe valorizar a ambição humana.
- os demais homens já renunciaram aos altos ideais, conformando-se sabiamente com a fatalidade das coisas vãs.
- os sábios já divisam dentro de si mesmos o que lhes cabe limitar para poderem cumprir seu destino.
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
Errado
Comentário do professor
A alternativa E é correta porque capta o contraste que Sêneca estabelece entre os que precisam de regras e os que já alcançaram autodomínio. Segundo o autor, os sábios não andam com timidez; eles conhecem internamente os limites necessários para que os desejos não os arrastem.
Essa capacidade de divisar e impor limites provém da autoconfiança e da clareza sobre o que é precário e o que está ao alcance. Assim, o sábio não depende das cautelas enunciadas para os imperfeitos.
Por isso, ao saber o que deve conter, o sábio pode cumprir seu destino sem se perder nas variações da alma, o que justifica a exclusão desses preceitos para ele.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em