Questão FC655123
[Autobiografia de um historiador] Não escrevi esta minha biografia com o espírito de confissão tão vendável hoje em dia, em parte porque a única justificativa para essa viagem em t
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2025
[Autobiografia de um historiador]
Não escrevi esta minha biografia com o espírito de confissão tão vendável hoje em dia, em parte porque a única justificativa para essa viagem em torno do ego é a genialidade - não sou nem um santo Agostinho nem um Rousseau - e em parte porque nenhum autobiógrafo vivo seria capaz de contar sua verdade particular sobre as coisas que envolvem outras pessoas vivas sem ferir injustificavelmente os sentimentos de algumas delas.
Este livro também não é uma apologia da vida do autor. Se o leitor não quiser entender o século XX, deve ler as autobiografias daqueles que se justificam a si mesmos, advogados de sua própria defesa, e as de seu reverso, os pecadores arrependidos.
Estes escritos não são a história do mundo ilustrada pelas experiências de um indivíduo, mas a história do mundo dando forma às experiências de um indivíduo, ou melhor, oferecendo uma gama de escolhas sempre limitadas, com as quais os homens fazem suas vidas, não nas circunstâncias escolhidas por eles, e sim nas circunstâncias diretamente proporcionadas pelo mundo em volta deles.
Busquei juntar meus temas de modo coerente, com alguma racionalização histórica. Outros historiadores poderão interessar-se por esse aspecto mais profissional do meu livro. Espero, entretanto, que os demais o leiam como uma introdução ao extraordinário século XX, como um relato que é também o itinerário de um ser humano cuja vida não poderia ter ocorrido em outro século.
(Adaptado de: HOBSBAWM, Eric. Tempos interessantes. Trad. S. Duarte. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 10-12)
Contrastando com os vários alertas sobre o que sua autobiografia não é, não pode ou não deseja ser, há no texto um reconhecimento afirmativo do autor quanto
- ao enfrentamento das inevitáveis incoerências que um autobiógrafo acaba por imputar aos seus métodos de historiador.
- à convicção de fornecer aos leigos o prazer de encontrar numa autobiografia uma síntese cabal da história do século XX.
- aos aspectos mais discretamente confessionais que ele preferiu manter em nome da veracidade dos fatos.
- à justificativa central de seu propósito de escritor autobiógrafo, escorada no desejo de expiar algumas culpas.
- à efetiva interação que ele, como indivíduo, manteve entre suas vivências e as circunstâncias do século em que as viveu.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
A alternativa correta reconhece que o autor afirma a interação entre sua vida pessoal e o contexto histórico, isto é, que suas experiências são moldadas pelas circunstâncias do século XX e vice-versa.
No trecho final ele resume essa ideia ao dizer que o livro funciona como o itinerário de um ser humano cuja vida não poderia ter ocorrido em outro século, o que expressa diretamente essa dependência mútua.
Isso significa que as vivências do narrador não são apresentadas como ocorrências isoladas, mas como resultados e reflexos do ambiente social, político e cultural em que se inseriu.
Portanto, a alternativa traduz fielmente o reconhecimento afirmativo do autor sobre a relação indissociável entre sua trajetória pessoal e as condições históricas do seu tempo.
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