Questão FC655128
Interativo demais Antigamente, os escritoress eram admirados apenas pelo que publícavam em livros e revistas. Quando algum leitor gostava muito do que havia lido e queria compartil
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2025
Interativo demais
Antigamente, os escritoress eram admirados apenas pelo que publícavam em livros e revistas. Quando algum leitor gostava muito do que havia lido e queria compartilhar com alguém, dava o livro de presente ou emprestava o seu. O conteúdo mantinha-se preservado, assim como seu autor. Ninguém divulgava um texto de Somerset Maugham como sendo de Virgínia Woolf, ninguém infiltrava parágrafos do Rubem Braga num texto do Sartre, ninguém criava novos finais para os poemas de Cecília Meireles. O escritor e sua obra eram respeitados, e os leitores podiam confiar no que estavam consumindo.
Além disso, artistas de cinema, músicos e esportistas eram mitos a cuja intimidade não se tinha acesso. Marilyn Monroe, Frank Sinatra e Ayrton Senna entregavam ao públlco o que prometiam - sua arte - e o resto era especulação. Mais tarde pipocavam biografias, saciando a curiosidade do público, mas o legado desses ícones se manteve para sempre incorruptível: eram os donos legítimos de sua imagem, de sua voz e de suas palavras.
Era uma época em que aceitávamos pacificamente nossa condíção de plateia, até que se inventou o conceito de interatividade e as ferramentas para exercê-la. Por um lado, a sociedade se democratizou, todos passaram a ser ouvidos, diminuiu a distância entre patrões e empregados, produtores e consumidores: as relações ficaram mais funcionais; por outro, o uso dessas ferramentas acabou involuindo para a maledicência e a promiscuidade virtual. Hoje ninguém consegue mais ter controle sobre sua imagem ou seu trabalho. Um ator de televisão diz "oi" para uma amiga na rua e na manhã seguinte correm notícias de que estão de casamento marcado. Uma cantora cancela um show porque está afônica e logo surge o boato de que tentou suicídio. Um escritor publica um texto no jornal e três segundos depois o mesmo texto está na intemet, atribuído a Toulouse-Lautrec, que nem escritor foi.
(Adaptado de Martha Medeiros. A graça da coisa. L &PM Editores. 2013)
O termo demais, do titulo, antecipa uma reflexão crítica que se desenvolve ao longo do texto, sobretudo em relação à
- banalização dos produtos culturais tradicionais, incapazes de competir com o dinamismo e a velocidade das novas plataformas digitais.
- maneira ativa de fruição artística no passado, considerado pela autora como avançada diante das novas exigências do público digital.
- resisitência de autores e artistas em se adaptarem ao novo modelo comunicacional, o que os afasta do público contemporâneo e compromete sua relevância cultural.
- substituição do contato direto com a arte por experiências filtradas por algoritmos, o que empobrece a relação entre criador e consumidor.
- perda de limites entre público e privado, decorrente do uso exacerbado de tecnologias de interatividade, que compromete a integridade da imagem e da produção artística.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
O advérbio "demais" no título Interativo demais já sinaliza uma avaliação negativa: a interatividade tornou-se excessiva e inconveniente.
O texto exemplifica esse excesso ao mostrar que artistas e autores perdem controle sobre sua vida e obra, com boatos, exposição íntima e atribuições errôneas de textos.
Tal cenário configura uma perda de limites entre o que é público e o que é privado, fruto do uso desmedido de ferramentas interativas.
Essa invasão compromete a integridade da imagem pessoal e da produção artística, tornando o legado vulnerável e distorcido.
Assim, a alternativa destaca com precisão a crítica central do texto: o excesso de interatividade prejudica a relação entre criador e público.
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