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Questão FC655146

Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte. O estranho ofício de escrever Éramos três condenados a escrever uma crônica diária em jornal: Rubem Braga no Diário de Notíci

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2025

Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.

 

O estranho ofício de escrever

 

Éramos três condenados a escrever uma crônica diária em jornal: Rubem Braga no Diário de Notícias, Paulo Mendes Campos no Diário Carioca e eu no O Jornal. Um dia, numa hora de aperto, o Rubem perdeu a cerimônia: — Será que você não teria aí uma crônica pequeninha para me emprestar? Procurei uma e lhe cedi uma que talvez servisse.

 

Tempos depois chegou a minha vez, e perguntei ao Rubem se não tinha uma crônica usada para servir este seu amigo. Pois não é que ele me passou a crônica que eu lhe havia cedido? Sou pobre, mas não sou soberbo. Ajeitei a crônica como pude, toquei-lhe uns remendos.

 

De toda crônica que publiquei na vida, houve sempre um leitor para achar que era a melhor e outro a pior que já escrevi. Nunca me esqueci do dia em que o Carlos Castello Branco me disse: — Eu, se fosse você, parava um pouco. Essa sua última crônica estava de amargar.

 

Parei dois anos por causa disso.

 

Quando recomecei, vez por outra recauchutava um escrito antigo, à falta de coisa melhor. Até que chegou o dia em que no meu estoque não restava senão uma, jamais republicada - justamente aquela que o Castelinho havia estigmatizado com seu implacável juízo crítico. Pois não é que veio ele me dizer, efusivo, a propósito da mesmíssima crônica: - É das melhores coisas que você já escreveu.

 

Havia-se esquecido, o mandrião. E por causa dele eu passara dois anos no estaleiro.

 

Quando lhe acusei a contradição, ele não se perturbou: - Agora achei boa. Ou a crônica melhorou, ou eu é que piorei.

 

(Adaptado de: MASSI, Augusto (org.) SABINO, Fernando. Os sabiás da crônica. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 151-152)

 

Fernando Sabino problematiza nesta crônica a recepção dos leitores e a questão do sempre discutível gosto literário, tal como se pode depreender deste enunciado:

  1. recauchutava um escrito antigo, à falta de coisa melhor (5º parágrafo).
  2. havia estigmatizado com seu implacável juízo crítico (5º parágrafo).
  3. condenados a escrever uma crônica diária em jornal (1º parágrafo).
  4. perguntei ao Rubem se não tinha uma crônica usada (2º parágrafo).
  5. Ajeitei a crônica como pude, toquei-lhe uns remendos (2º parágrafo).
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Gabarito

B

Comentário do professor

havia estigmatizado com seu implacável juízo crítico condensa o cerne da crônica: a avaliação do crítico marcou negativamente o autor e revela a força do parecer alheio sobre a recepção da obra.

O verbo estigmatizar sugere um rótulo duradouro que levou o narrador a afastar-se da escrita por dois anos, enquanto o adjetivo implacável aponta para uma autoridade crítica percebida como inflexível.

Ao relatar que esse mesmo crítico depois elogia a mesma crônica, o trecho evidencia a subjetividade e a inconsistência do gosto literário. Assim, a expressão escolhida funciona como síntese temática: críticas têm poder, mas não são absolutas nem permanentes.

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