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Questão FC655152

Vejo a dor de meus filhos quando tentam entender a passagem do tempo e o fim da vida. Lucian, que tinha seis anos quando escrevi estas linhas, pensa obsessivamente sobre a morte de

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2025

Atenção: Para responder às questão de número, baseie-se no texto seguinte.

 

[Perguntas para o tempo]

 

A repetição pode acalmar e confortar, em nossa vida. Se a Natureza dança em um certo ritmo, talvez o mesmo se aplique a nós. Um tempo cíclico traz a promessa de um renascimento, estabelecendo uma conexão profunda entre o homem e o cosmos: nossa existência inseparável da do mundo. Por que não crer que a morte não seja o final, mas o início de uma nova existência? Que a vida se repete em cicios?

 

Vejo a dor de meus filhos quando tentam entender a passagem do tempo e o fim da vida. Lucian, que tinha seis anos quando escrevi estas linhas, pensa obsessivamente sobre a morte desde os quatro. A morte parece absurda quando o tempo é eterno. Lucian está convencido de que retornamos, só não sabe se retornamos a mesma pessoa ou outra. Sua preferência, claro, é que retornemos os mesmos, essencialmente revivendo a vida já conhecida ou, melhor ainda, revivendo-a por toda a eternidade. Caso contrário, como lidar com a perda da pessoa amada?

 

Com o coração partido, digo-lhe que o que ocorre conosco é o mesmo que ocorre com a formiga que ele esmaga casualmente sob seus pés. Lucian não se convence. "Como é que você sabe, papai?" "Não tenho certeza filho. Algumas pessoas acham que voltamos, outras que vamos para o Paraiso. O problema é que os que se foram não mandam noticias, não nos contam para onde foram e para onde vamos". A conversa costuma terminar num abraço bem apertado.

 

O tempo, linear ou ciclico, é uma medida de transformação. Em muitas narrativas míticas os deuses existem fora do tempo, nunca envelhecendo ou adoecendo, enquanto os humanos existem dentro do tempo, sujeitos aos caprichos de sua passagem. Olhamos a Natureza e queremos confiar em suas repetições, que parecem assegurar uma duração infinita. Mas de nada temos certeza. Disse Milan Kundera: "são perguntas sem resposta que definem os limites das possibilidades humanas, que descrevem as fronteiras da existência humana".

 

(Adaptado de: GLEISER, Marcelo. A ilha do conhecimento. Rio de Janeiro: Record, 2023, p. 39-40)

 

Mostra-se tensa a relação entre o pai e seu filho Lucian porque

  1. mostram-se ambos inseguros de seus laços afetivos, em razão da fatalidade da morte.
  2. a incredulidade materialista do filho não pode ser consolada pelo misticismo do pai.
  3. ambos sabem que cada renascimento implica a perda das relações afetivas anteriores.
  4. o sentimento do pai, diante da morte, é desprovido da crença consoladora do filho.
  5. tanto um como outro, sabendo-se mortais, sentem a morte como a consumação de um absurdo.
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Gabarito

D

Comentário do professor

A alternativa indica que a tensão nasce porque o pai não partilha da crença consoladora do filho sobre a morte. Lucian nutre a esperança de um retorno ou repetição da vida, uma explicação que lhe dá segurança diante da perda. O pai, por sua vez, declara explicitamente: "Não tenho certeza", e chega a comparar a morte humana ao destino de uma formiga esmagada, atitude que revela descrença ou pelo menos ausência de convicção reconfortante.

Essa discrepância gera sofrimento: o filho busca uma resposta que lhe cure o medo da perda, enquanto o pai, afetuoso, oferece dúvida e analogia fria. A falta dessa resposta firme impede a reconciliação de pontos de vista e traduz-se na tensão emocional entre ambos.

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