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Questão FC655164

− Como é, está bom?

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2022

O dono do pequeno restaurante é amável, sem derrame, e a fregueses mais antigos oferece, antes do menu, o jornal do dia “facilitado”, isto é, com traços vermelhos cercando as notícias importantes. Vez por outra, indaga se a comida está boa, oferece cigarrinho, queixa-se do resfriado crônico e pergunta pelo nosso, se o temos; se não temos, por aquele regime começado em janeiro, e de que desistimos. Também pelos filmes de espionagem, que mexem com ele na alma.

 

Espetar a despesa não tem problema, em dia de barra pesada. Chega a descontar o cheque a ser recebido no mês que vem (“Falta só uma semana, seu Adelino”).

 

Além dessas delícias raras, seu Adelino faculta ao cliente dar palpites ao cozinheiro e beneficiar-se com o filé mais fresquinho, o palmito de primeira, a batata feita na hora, especialmente para os eleitos. Enfim, autêntico papo-firme.

Uma noite dessas, o movimento era pequeno, seu Adelino veio sentar-se ao lado da antiga freguesa. Era hora do jantar dele, também. O garçom estendeu-lhe o menu e esperou. Seu Adelino, calado, olhava para a lista inexpressiva dos pratos do dia. A inspiração não vinha. O garçom já tinha ido e voltado duas vezes, e nada. A freguesa resolveu colaborar:

 

− Que tal um fígado acebolado?

 

− Acabou, madame − atalhou o garçom.

 

− Deixe ver… Assada com coradas, está bem?

 

− Não, não tenho vontade disso − e seu Adelino sacudiu a cabeça.

 

− Bem, estou vendo aqui umas costeletas de porco com feijão-branco, farofa e arroz…

 

− Não é mau, mas acontece que ainda ontem comi uma carnezita de porco, e há dois dias que me servem feijão ao almoço − ponderou.

 

A freguesa de boa vontade virou-se para o garçom:

 

− Aqui no menu não tem, mas quem sabe se há um bacalhau a qualquer coisa? − pois seu Adelino (refletiu ela) é português, e como todo lusíada que se preza, há de achar isso a pedida.

 

Da cozinha veio a informação:

 

− Tem bacalhau à Gomes de Sá. Quer?

 

− Pode ser isso − concordou seu Adelino, sem entusiasmo.

 

Ao cabo de dez minutos, veio o garçom brandindo o Gomes de Sá. A freguesa olhou o prato, invejando-o, e, para estimular o apetite de seu Adelino:

 

− Está uma beleza!

 

− Não acho muito não − retorquiu, inapetente.

 

O prato foi servido, o azeite adicionado, e seu Adelino traçou o bacalhau, depois de lhe ser desejado bom apetite. Em silêncio.

 

Vendo que ele não se manifestava, sua leal conviva interpelou-o:

 

− Como é, está bom?

 

Com um risinho meio de banda, fez a crítica:

 

− Bom nada, madame. Isso não é bacalhau à Gomes de Sá nem aqui nem em Macau. É bacalhau com batatas. E vou lhe dizer: está mais para sem gosto do que com ele. A batata me sabe a insossa, e o bacalhau salgado em demasia, ai!

 

A cliente se lembrou, com saudade vera, daquele maravilhoso Gomes de Sá que se come em casa de d. Concessa. E foi detalhando:

 

− Lá em casa é que se prepara um legal, sabe? Muito tomate, pimentão, azeite de verdade, para fazer um molho pra lá de bom, e ainda acrescentam um ovo…

 

Seu Adelino emergiu da apatia, comoveu-se, os olhos brilhando, desta vez em sorriso aberto:

 

− Isso mesmo! Ovo cozido e ralado, azeitonas portuguesas, daquelas… Um santo, santíssimo prato!

 

Mas, encarando o concreto:

 

− Essa gente aqui não tem a ciência, não tem a ciência!

 

− Espera aí, seu Adelino, vamos ver no jornal se tem um bom filme de espionagem para o senhor se consolar.

 

Não tinha, infelizmente.

(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. 70 histórias. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 110-111)

 

Na crônica, a freguesa é caracterizada como

  1. introspectiva.
  2. solícita.
  3. volúvel.
  4. impertinente.
  5. irônica.
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Gabarito

B

Comentário do professor

A escolha solícita se justifica pelo comportamento ativo e prestativo da freguesa ao longo da crônica. Ela propõe opções do cardápio, vira-se para o garçom para agilizar o pedido e procura animar seu acompanhante.

Há evidências textuais: o enunciado indica que ela é “de boa vontade”, ela sugere pratos, pergunta ao garçom sobre bacalhau e, para estimular o apetite do seu Adelino, elogia o prato com “Está uma beleza!”.

Esses trejeitos mostram que a freguesa não é apenas observadora; ela intervém para ajudar, orientar escolhas e criar clima agradável. Por isso, a melhor palavra para descrevê‑la é solícita, isto é, prestativa e pronta a auxiliar.

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