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Questão FC655219

– Esse aí não é o Zezito, não! Cadê o Zezito?

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2022

Texto

 

Memória de longe

 

Ao longo da vida, nossas lembranças não apenas se renovam, segundo os fatos que vão acontecendo. A faculdade da memória, em seu misterioso processo, muda de natureza. Na velhice, a memória costuma priorizar as lembranças mais antigas segundo necessidades novas. É o que confirma o caso seguinte.

 

Meu muito velho vizinho estava morrendo. Ciente de seu estado, pediu que chamassem o filho longínquo, que há tanto tempo estava sem ver, já perdera a conta dos anos. Chamaram, e o filho José se pôs a caminho, ele mesmo, seu filho predileto, o filho Zezito. E o José enfim chegou de sua longa viagem de avião, respondendo contristado ao apelo paterno. Surgiu no quarto penumbroso, achegou-se ao leito, os cabelos e os bigodes já grisalhando contra a luz do abajur.

 

A filha alertou o velho:

 

– Olha, aí, pai, o Zezito chegou. Pertinho de você.

 

O velho entreabriu os olhos turvos e já ia estendendo um braço, quando então o recolheu, murmurando num tom irritado:

 

– Esse aí não é o Zezito, não! Cadê o Zezito?

 

Horas depois o velho vizinho partiu. Sem se despedir de ninguém, nem mesmo do menino que há tanto, tanto tempo perdera de vista.

 

(Jesualdo Calixto, inédito)

 

O caso narrado no texto é relatado para demonstrar que, como costuma ocorrer na velhice, a memória mais antiga

  1. torna-se exclusiva, podendo mesmo eliminar a consciência do tempo que já correu.
  2. traz de novo aos nossos olhos uma imagem realista do que julgávamos esquecido.
  3. tende a continuar imaginariamente no tempo, compondo uma nova história.
  4. dá aos fatos mais remotos um novo contorno, no qual se perde todo o valor que tiveram.
  5. esfuma-se sob as pressões mais recentes, antecipando assim o final de uma vida.
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Gabarito

A

Comentário do professor

O episódio ilustra que, na velhice, a memória mais antiga tende a sobrepor-se às lembranças mais recentes. O narrador aponta que o velho prioriza recordações remotas, formando uma imagem fixa do filho.


No leito de morte, ao ver José já adulto, o homem não o reconhece porque sua lembrança de Zezito permaneceu intacta e imutável. Essa imagem antiga domina o presente e impede a atualização da percepção.


Daí a expressão torna-se exclusiva: a recordação antiga passa a ser a única referência acessível, excluindo outras versões da mesma pessoa. Esse predomínio pode, portanto, eliminar a consciência do tempo decorrido, fazendo o idoso agir como se o passado ainda fosse o presente.

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